
Em 1967, Philippe Garrel, então com 19 anos, encontra Jean Eustache num café, como nos conta Philippe Azoury no livro Jean Eustache – Un amour si grand. Era um encontro de artistas para um documentário para a televisão, Le jeune Godard et ses émules. Garrel retomará esta sequência no seu filme de 1988, Les Ministères de l’art, que dedica à memória de Eustache, uma sequência de rara beleza, na qual este é filmado de muito perto, o seu rosto com os olhos azuis enrugados e um sorriso encantador a ocupar a quase totalidade do plano.
Depois do acontecimento que foi, em 2022, a recuperação da obra-prima absoluta de Eustache, A Mãe e a Puta / La Maman et la putain, “o mais belo filme francês da década de 1970”, como escreveu Serge Daney, e um dos mais venerados e mais citados do cinema francês, e mesmo da história do cinema, a Leopardo Filmes estreia agora em sala todos os filmes de Eustache, inéditos comercialmente em Portugal, uma obra de génio, breve e intensa, realizada por este cineasta lendário em 18 anos, amada pelos seus pares, de Garrel a Werner Schroeter, Olivier Assayas, Jim Jarmusch, Jane Campion, Chantal Ackerman, Claire Dennis, Hong Sangsoo, Pedro Costa, Harmony Korine, Gaspard Noé ou Sean Price Williams. Que trabalhou com Jean-Pierre Léaud, Ingrid Caven, MIchael Lonsdale, Bernadette Lafont, Isabelle Weingarten, e que trouxe a glória a Françoise Lebrun.
A acompanhá-los, num díptico de programação no cinema Nimas, os filmes de Philippe Garrel, também restaurados, com a sua supervisão, os do início da sua obra, das décadas de 60 e 70, que marcariam para sempre o seu cinema posterior, e ainda Coração Fantasma (1995), produzido por Paulo Branco, e Os Amantes Regulares (2005), um dos seus filmes mais aclamados, onde regressa ao Maio de 68, reinventando-o como se fosse de uma nova geração (a do seu filho Louis, que desempenha um dos papéis principais).
Garrel tinha apenas 16 anos quando, em 1964, realiza Les Enfants désacordés, o mesmo ano em que sai o primeiro filme de Eustache, Les Mauvaises fréquentations / As Más Companhias, título que mais tarde, quando faz Le Père Noël a les yeux bleus, produzido por Jean-Luc Godard, utilizará para juntar num díptico os dois primeiros filmes, rebaptizando o primeiro Du côté de Robinson / Os de Robinson. Os cineastas admiravam-se mutuamente, as obras de ambos são ferozmente pessoais e encontramos várias rimas nos filmes de um e do outro, para além da “partilha” de um dos actores fétiche da Nouvelle Vague, Jean-Pierre Léaud. “L’Enfant secret não é La Maman et la putain mas, dez anos depois, é o que mais se aproxima dele.” (Serge Daney)
Poderíamos pegar nas palavras de Alain Philippon na sua monografia sobre Eustache e a propósito deste, e estendê-las também à obra de Garrel, para afirmar que ambos ocupam um lugar simultaneamente “marginal” e central no cinema francês, dois cineastas “Inclassificáveis”, “esquivos”, mas dois dos maiores, ou os dois maiores, surgidos no período que se seguiu imediatamente à Nouvelle Vague.
“Em Eustache, a narrativa, a escrita, a lenda, tudo o que faz um filme tem origem em algo vivido, na recordação de um instante fugaz, de uma conversa, de uma época, de um acontecimento.” – Azoury. Mas, e continuamos a citar “nenhum dos seus filmes se fecha, e cada um abre-se para uma multiplicidade de fragmentos de sentido, de possibilidades, que se desenham e redesenham sem cessar, entrechocando-se e quebrando-se perpetuamente no jogo de uma escrita que resiste a qualquer homogeneização”. Esta é a obra de um autodidata que aprendeu com a leitura dos grandes filmes, como ele próprio diz, de Renoir, Dreyer e Mizoguchi, de Murnau e de Chaplin, de Lubitsch, que trabalhou com Rivette, Rohmer, Biette, Moullet e Paul Vecchiali, uma obra breve (duas longas de fiçcão, alguns documentários onde o realizador se coloca e nos coloca perante os mistérios do “real”, e um punhado de curtas), uma obra que vê do outro lado do espelho e era a primeira intrusão de um outro meio social e cultural no mundo pequeno-burguês dos da Nouvelle Vague, como diria um deles, Jean Douchet, que admirava Eustache e se tornaria um dos seus cúmplices, uma obra que amiúde “queima”, que arrisca, que mina as nossas certezas, uma obra onde o íntimo nos faz chegar ao coração de uma memória comum, a história francesa de várias gerações.
Nascido no seio do meio artístico parisiense – o seu pai era actor e marionetista e fora um empenhado combatente da Resistência –, Philippe Garrel cedo partiu para o mundo e começou, enfant secret, a filmar muito jovem um cinema contemporâneo da vida, da sua vida, mas também testemunho da sua geração, um cinema febril, onde, como escreveu Bernard Eisenchitz “cada imagem é única e é produto de uma luta, de uma aposta vital”. Em 1969 encontrou Nico em Roma, a bela Nico, a maravilhosa Nico, a amada Nico (Jorge Silva Melo), admiradora intrigada, estrela da Factory de Warhol e que ali gravara o disco “The Velvet Underground & Nico”. Garrel completara 21 anos e a sua quarta longa, Le Lit de la vierge, e procurava uma banda sonora para o filme. Ela propôs-lhe a sua canção “The Falconer”, começando ali uma relação amorosa e artística que duraria 10 anos e um punhado de filmes. “A câmara no lugar do coração”, dizia Nico de Garrel. Vamos vê-la em La Cicatrice intérieure, 1970/71; Athanor, 1972; Les Hautes solitudes, 1974; Un Ange passe, 1975; Le Berceau de cristal, 1975; e Le Bleu des origines, 1978, restaurado e remontado em 2025. Filmes maravilhosos e miraculosos, onde Garrel explora a “fronteira invisível entre a época, altamente psicadélica, e uma linha do tempo que terá perdido a sua cronologia, tornando-se mitológica” (Azoury). M’espanto às vezes, diríamos, espectadores, quando nós neles os olhos pomos. Alguns destes filmes têm sido raramente projectados e é um privilégio e um espanto poder vê-los agora, junto com os outros [e veremos ainda Nico emThe Chelsea Girls (1966), de Warhol].
“Os seus filmes continuam a ser meteoros, vêm do coração, passam-nos pela vida, como acidentes celestes.” (JSM)