Já começou a jornada pelo Festival Internacional de Cinema de Berlim e, depois de destacados os primeiros títulos, as atenções voltam-se agora para a sua secção mais emblemática: a Competição Oficial. São 22 filmes na corrida aos Ursos de Ouro e de Prata, obras que prometem marcar o circuito cinematográfico dos próximos meses. Entre eles está “A Voix Basse – In a Whisper” (“Num Sussurro”), o novo filme de Leyla Bouzid.
A realizadora franco-tunisina apresenta uma história que cruza dois mundos — França e Tunísia — através da personagem Lilia, uma jovem que vive em França e regressa ao país natal para o funeral do tio, Daly. Mas Lilia não volta sozinha: traz consigo Alice, a sua parceira francesa, cuja verdadeira relação permanece desconhecida no seio da família.
À medida que a narrativa avança, descobre-se que o próprio tio Daly também era um homem queer a viver na Tunísia — uma representação rara no cinema e ainda mais significativa tendo em conta que, no contexto tunisino, a homossexualidade continua a ser criminalizada. Bouzid constrói assim um retrato íntimo de uma família marcada por silêncios, segredos e afetos contidos, revelando uma casa onde convivem várias gerações de mulheres, cada uma com as suas próprias circunstâncias e dilemas.
Apesar do peso político do contexto, “A Voix Basse” destaca-se sobretudo pela delicadeza e ternura com que aborda as dinâmicas familiares. O filme chegará às salas de cinema em Portugal, França e outros países — incluindo a própria Tunísia — um gesto que reforça a importância da sua existência e circulação.
No elenco destaca-se Hiam Abbass, actriz palestiniana conhecida do público por filmes como Gaza Mon Amour. Em “A Voix Basse”, interpreta a mãe de Lilia, numa performance marcada pela subtileza emocional.
Num encontro com um grupo de jornalistas mulheres de diferentes países, Abbass sublinhou como muitos dos temas do filme — sobretudo o silêncio em torno da vida privada dentro das famílias — são universais. “Há coisas que, por diferentes razões, não revelamos à nossa família”, partilhou, num momento de cumplicidade que espelhou o próprio espírito do filme.
A conversa acabou também por tocar na dimensão política do cinema, num festival onde essa questão tem sido central, sobretudo após as declarações de Wim Wenders, presidente do júri desta edição, sobre se o cinema deve — ou não — ser político. Para Abbass, a resposta é clara: contar histórias íntimas, mesmo quando ficcionais, é já um gesto profundamente político.
Num ano em que a Berlinale volta a afirmar-se como palco de reflexão e debate, “A Voix Basse – Num Sussurro” surge como um dos exemplos mais delicados e contundentes de como o cinema pode cruzar o pessoal e o político — em voz baixa, mas com enorme impacto.