Hoje, dia 26 de maio de 2026, Miles Davis faria 100 anos.
Porque é que Miles Davis importa em 2026?
Miles Davis foi um dos grandes inovadores do século XX, porque nunca aceitou que o jazz fosse um quarto escuro e fechado. Tocava como quem redesenhava o ar. Poucas notas, muito espaço e uma ideia quase arquitectónica do som. Em vez de exibir virtuosismo, fazia da contenção uma forma de autoridade. Foi bebop, cool jazz, hard bop, modal, eléctrico, funk, quase hip hop antes do tempo.
A roupa, a postura, as capas dos discos, o silêncio entre frases, a forma como entrava e saía de cena, tudo em Miles era linguagem e faziam dele um esteta radical. Compreendeu cedo que a modernidade não estava apenas nas harmonias, mas na atitude. Kind of Blue não é só um disco de jazz é um modo de estar no mundo. Bitches Brew não é só fusão é uma cidade eléctrica. O músico nascido no Illinois foi sempre, também, uma figura difícil, por vezes brutal e contraditória, marcada por comportamentos que hoje seriam justamente escrutinados e talvez o tornassem “cancelável”.
Miles tinha nele nele uma tensão incómoda onde tínhamos lado a lado o génio que abria portas estéticas e o homem que nem sempre merece absolvição moral. Não vale a pena polir a biografia para ficarmos com o mito. Talvez a melhor forma de o olhar seja aceitar essa fricção.
O impacto de Miles na música actual é significativo, sobretudo porque o músico nascido há um século, ensinou gerações a pensar o som como matéria em movimento. No hip hop, isso sente-se na lógica do loop, do groove como narrativa. da atmosfera, da suspensão e nos silêncios. Uma linhagem que passa pelos samples de jazz, claro, mas vai bem mais fundo. A Tribe Called Quest, Digable Planets, Guru, Madlib, J Dilla, Flying Lotus, Kendrick Lamar ou Robert Glasper não herdam apenas acordes ou timbres mas uma atitude de laboratório. Miles mostrou que a música negra podia ser sofisticada, popular, experimental, sensual, política e futurista. Podia ser tudo isto e tudo isto ao mesmo tempo.
Miles Davis no grande ecrã
Qual o sentido da vida? Porque é que a galinha atravessa a estrada? Há perguntas que nos desconsolam, que nos deixam a coçar a cabeça, sem saber o que pensar. Como esta: será “Ascenseur pour l’échafaud”, de 1958, mais conhecido como filme (o primeiro do francês Louis Malle) ou como disco (a primeira banda-sonora assinada por Miles Davis)?
Ambas as respostas podem estar certas. Se “Fim-de-semana no ascensor”, o filme, é clássico do cinema francês, film noir por excelência saído da nouvelle vague, que revelou o talento enorme de Malle (que daí para a frente, se dividiria entre França e Hollywood), já “Ascenseur pour l’échafaud”, a banda-sonora, é disco de jazz, disco de génio, que confirmou a lenda de Miles (em fuga de uma América apertada, em busca de uma Europa prometida).
Composta – ou melhor: tocada, improvisada e gravada – numa só noite (meras cinco horas de jazz) em Dezembro de 1957, por Davis e um quarteto recém-formado e sem saber ao que ia, de frente para uma tela em que via o filme (ainda sem música) pela primeira vez, a banda-sonora de “Ascenseur pour l’échafaud” ofereceu ao jazz “o mais solitário som de trompete” e ao cinema a banda-sonora mais que perfeita, uma sonoridade que ainda hoje associamos ao film noir.
Uma noite de jazz para um “Fim-de-semana no ascensor” – e a eternidade conquistada num sopro.
Miles Ahead, o disco, é de 1957 e um dos primeiros de Miles Davis lançados pela editora Columbia. Contudo, grande parte do filme de 2015 passa-se no final dos anos 70, num hiato sem novas composições ou novos álbuns. Música ou silêncio. Crise criativa ou o simples direito a parar. Miles, Não-Miles ou Que Miles?
Homenagem não hagiográfica, interpretado e realizado por Don Cheadle (primeiro e, até ver, único filme dirigido pelo actor), Miles Ahead regressa também a um passado mais distante, a um período de fulgor do génio. Tem traços da América racista, da misoginia e dos amores conturbados, algo tão presente neste tipo de biopics musicais. E, não só nesse período, o jazz é incontornável. É quase uma personagem omnipresente, como trilha narrativa ou não-narrativa, mais rápido ou mais lento, mais psicadélico ou harmonioso, ao sabor da cadência das cenas.
No que mais interessa, estamos à procura da gravação (im)perfeita. A bobine parece ser apenas um Mcguffin do filme, mas acaba a ser também, de forma cooperativa, um desbloqueador do talento que parecia perdido. Real, ficcional ou um sonho alucinado em torno de Miles? Que importa.