Roterdão vive os últimos dias do seu Festival Internacional de Cinema, num ambiente marcado pela forte presença de equipas portuguesas. A participação nacional não é casual: o certame tem-se afirmado como um espaço relevante para a exibição e valorização do cinema português, com várias obras em destaque ao longo da programação.
Na reta final do festival, o foco recai sobre duas curtas-metragens portuguesas que encerram este capítulo de partilha da produção nacional: OH BE A FINE GIRL KISS ME de Alice dos Reis, e Rui Carlos de Margarida Paias.
O novo filme de Alice dos Reis parte de uma referência mnemónica — “O, B, A, F, G, K, M” — que dá também título à obra. A curta acompanha uma personagem de outro tempo e de outro contexto, ligada às estrelas, numa fase de transição antes de um renascimento. O filme constrói-se através de imagens em suspensão, em movimento, cruzando reencenações de freiras com diferentes cenários e temporalidades.
Rodado em película de 16 mm e em iPhone, o filme explora distintas texturas visuais que acompanham a viagem da personagem até ao seu destino final: Portugal, em 1995. A paisagem sonora, marcada por música com referências aos anos 90, sublinha o ponto de viragem da narrativa. OH BE A FINE GIRL KISS ME foi apresentado no Festival Internacional de Cinema de Roterdão com a presença da realizadora.
Mantendo a ideia de viagem, segue-se Rui Carlos, curta-metragem de Margarida Paias que cruza os finais dos anos 80 com o início dos anos 90. O filme adota movimentos de câmara que evocam a perceção infantil, transformando um único dia numa pequena epopeia.
O futebol assume um papel central na narrativa, funcionando quase como uma personagem. Uma das cenas-chave retrata um jogo entre um grupo de amigos, revelando o desafio técnico e narrativo de filmar uma partida marcada por movimento constante e múltiplas ações simultâneas.
Rui Carlos já foi exibido em Portugal e teve agora a sua estreia internacional em Roterdão, onde marcou presença após sessões nacionais descritas como emocionalmente intensas, tanto para o público como para os jovens atores envolvidos.
Com estas duas obras, o cinema português despede-se do festival e abre espaço para os momentos finais da programação, que prometem abrandar o ritmo e refletir sobre temas como terapia, cura e bem-estar — pistas que o próprio cinema parece oferecer depois de tantos dias de intensa atividade.