Inspirado na vida da própria realizadora — que também protagoniza o filme — La Belle Année nasce a partir de diários pessoais e constrói-se num território onde o cinema e a poesia se cruzam. A obra convoca referências literárias como “Poem nu sover jag”, da poeta sueca Kristina Lugn, e “Song of the Open Road”, de Walt Whitman, mas encontra na própria escrita cinematográfica um gesto profundamente poético.
O filme navega entre o presente da vida adulta da protagonista, incursões na fantasia e memórias do passado, criando um retrato íntimo e delicado. A paisagem sonora assume um papel central, reforçada por clássicos da música francófona que transportam o espectador para um ambiente nostálgico e assumidamente francês.
Para além das referências literárias, La Belle Année constrói um vasto universo de sugestões visuais e cinematográficas. Entre elas destaca-se Daughters of Darkness, filme dos anos 70 protagonizado por Delphine Seyrig, cuja influência é assumida e “reencarnada” em vários momentos da obra de Ruffier. Clássico do cinema associado ao imaginário dos vampiros, Daughters of Darkness não marca apenas La Belle Année, mas também outros títulos presentes no festival, como Accept Our Sincere Apologies de Juja Dobrachkous. O universo vampírico surge, assim, como um dos fios condutores desta edição do Festival de Roterdão.
La Belle Année de Angélica Ruffier integra a competição principal do Festival Internacional de Cinema de Roterdão, afirmando-se como uma das propostas mais delicadas e cinematograficamente ricas desta edição.