Num dos principais epicentros do cinema de autor a nível mundial, o Festival Internacional de Cinema de Roterdão volta a ser palco para uma reflexão profunda sobre o estado da arte contemporânea. Seguindo o mote do filme de abertura, de João Nicolau, a programação deste ano mergulha nas tensões, contradições e desafios de um ecossistema artístico onde visibilidade, poder e performance são parte das regras do jogo.
Um dos exemplos mais contundentes é Art Is Dark and Full of Horrors, do realizador mexicano Artemio Narro. O título não deixa margem para ambiguidades e serve como síntese de um retrato duro — por vezes desencantado — das dinâmicas internas do mundo da arte. Quem é visto? Quem vence? Quem consegue estar nos lugares certos, no momento certo? O filme amplifica aquilo que muitas vezes permanece implícito: o lado performativo e obscuro que envolve artistas, curadores, jornalistas e outros protagonistas deste sistema altamente competitivo.
Mas Roterdão não se limita à denúncia. A atenção à própria prática artística surge também em The End, um filme que explora o universo da pintura através da participação direta de Albert Oehlen. O artista é protagonista, mas com outro corpo, num processo que coloca em cena a criação pictórica em si mesma. A pergunta ecoa ao longo do filme: quando é que um artista sabe que uma obra está terminada? Não há uma resposta verbal, mas a montagem e a materialidade do filme constroem essa reflexão de forma sensorial.
A palavra, enquanto forma artística, ganha destaque em My Semba, de Hugo Salvaterra, rodado em Angola. O filme cruza poesia, identidade e oralidade através de poetry slams e performances que celebram o semba e a musicalidade da linguagem. Aqui, a música nasce da própria palavra — da sua cadência, da pronúncia, até da forma como um simples “r” pode alterar significados. Entre pontuações musicais, o filme cria pontes inesperadas entre Angola e o Irão.

Mozart atravessa a programação de forma surpreendente. Para além de surgir na banda sonora de My Semba, o compositor é revisitado em Wolfgang, de Filmsaaz. Trata-se de um Mozart contemporâneo, interpretado por uma atriz que assume múltiplos papéis — mãe, pai, crush, bro — numa narrativa que viaja do Irão até Paris. Longe de uma abordagem clássica, o filme assume um tom trash, exagerado e assumidamente subversivo, estruturado em capítulos inspirados em árias, com destaque para A Flauta Mágica.
Um dos momentos mais curiosos surge com O du eselhafter Peierl, peça que revela o lado cómico e obscuro de Mozart, criada para satirizar uma figura real da sua época. Esta referência reforça a ideia central de Wolfgang: a arte, mesmo quando exagerada, grotesca ou desconfortável, continua viva e capaz de desafiar convenções europeias e narrativas estabelecidas.
Entre horrores e luzes, o Festival de Cinema de Roterdão mostra que o estado da arte está longe de ser terminal. Pelo contrário, nas suas formas mais críticas, performativas e até absurdas, a criação artística continua a reinventar-se — e a provocar.
Teresa Vieira continua a fazer a cobertura do Festival Internacional de Cinema de Roterdão até sexta-feira, dia 5 de fevereiro.