As contas estão feitas, e estes são os 30 álbuns nacionais de 2025 mais votados pela equipa da Antena 3. Durante os dias 18, 19, 22 e 23 revelamos as nossas escolhas no que diz respeito a álbuns e a canções, nacionais e internacionais. Acompanha as contagens ao longo da emissão ou em atualização permanente aqui no site.
Nota: Foram contempladas as edições entre 1 de dezembro de 2024 e 28 de novembro de 2025.
O mote é simples: “todos os meus heróis são mulheres”. Entre o rap e o R&B, LIBRA estreia-se para dar voz a quem nunca a conseguiu erguer.
O trio portuense regressa num delírio noise-punk que é cómico e cru, rindo-se na cara das bizarrices com o mundo a ruir à sua volta.
O que fazer com as mãos? Francisco Andrade encontrou a resposta: esfregou-as, como Aladino à lâmpada mágica, e fez sozinho um álbum que explora as dores de crescimento.
Entre Ílhavo, o Pico e Brooklyn, himalion inspira-se nos herdeiros da indie-folk para questionar a velha máxima: será que o que se vê é tudo o que existe?
A fúria ancestral e a urgência contemporânea de Scúru Fitchádu irrompem neste manifesto sonoro, onde memória e insurgência se entrelaçam para transformar a raiva em motor criativo.
Linda Martini incorporam os momentos mais rasgados e ternurentos dos últimos 22 anos num álbum que respira como organismo vivo.
Um léxico próprio escrito em 3 capítulos. O peso e a leveza são duas cores que, aqui somadas, são igual a Violetta.
Mais um volume do laboratório sonoro de Sam: loops emparelhados e samples cuidadosamente mixados na Caixa de Ritmos de Samuel Mira.
Leonardo Bindilatti e Lourenço Crespo chegam de Mala Feita “sem medo, nada a perder”. O regresso do indie-pop cinematográfico de Iguanas, com mão do suspeito do costume: B Fachada.
Mizzy Miles junta os nomes mais possantes da “primeira liga” do hip-hop tuga: Wet Bed Gang, Slow J, Ivandro, ou Nenny são alguns dos convocados para dar voz aos hits do produtor lisboeta.
O que levarias contigo para uma ilha deserta? Rui Maia escolheu um transmissor FM, uma mesa de mistura, uma Maria João do Rosário e um João Cabrita.
Afinidade artística celebrada num mosaico multilingue de versões e originais.
O rock mutante dos Evols atira-se a novos territórios, do minimalismo despido ao barroco total.
Desde que se conheceram a estudar em Berkeley, nunca mais se perderam de vista. Lifeline junta a técnica refinada do produtor à voz que tão bem conhecemos.
“Born to be mild”: o trocadilho só resulta em inglês, mas é o melhor sumário do quinto álbum da mestre das guitarras luminosas.
Sobre a poesia de Regina Guimarães, Ana Deus e Alexandre Soares refletem o presente numa paisagem onde cada som respira, sussurra e se expande.
Uma nuvem de fumo a envolver 16 canções instrumentais. Tó Trips leva-nos à pendura por uma Lisboa febril, entre o jazz, o fado e a cumbia.
Papillon está “desde puto a sonhar com esta life”. O rapper de Mem Martins completa-se em Wonder, álbum de palíndromos que encerra a trilogia que Deepak Looper começou.
Entre a groove, soul e jazz que fazem parte do seu ADN, Da Chick leva-nos às nuvens e alerta: o que é preciso é satisfazer a alma.
Toda a genica da pop analógica: a destreza necessária para o jogo dos pauzinhos ouve-se no disco de estreia de Inês Sousa.
No topo da lista, encontramos um álbum que nasceu de um turbilhão existencial, uma dor de cabeça necessária chamada autodescoberta… LONDON, WHEN ARE U GONNA FEEL LIKE HOME? é o primeiro LP de Raquel Martins e ocupa a nossa 10.ª posição.
O Douro viu-a deixar o país aos 17; o Tamisa mastigou-a e devolveu-a às ruas de Londres. Depois de dois anos a acompanhar, de guitarra em riste, artistas como Biig Piig, Rina Sawayama ou Loyle Carner, foi entre concertos que começou a desconstruir a noção de pertença, até perceber que não se sentia de lado nenhum.
Decidiu afastar-se dos palcos e fechou-se no estúdio, onde traçou uma viagem cheia de glitches sonoros que espelham a sua cacofonia interna: será que já se esqueceram de mim?, pergunta num sussurro em apneia. A sensação de não pertencer a lado algum culminou neste fluxo de consciência bilingue, que, entre o nu-jazz e a R&B, reconstrói identidades de género e vai encontrando a sua comunidade. Lá para o
fim do disco, Raquel Martins impõe-se: DON’T PRESS REPLAY. Ora aqui está um apelo que não prometemos cumprir…
Em 9.º lugar, clamamos Viva La Muerte!. O 16.º álbum dos bracarenses Mão Morta surgiu de um desafio do Theatro Circo para uma celebração dupla: os 40 anos de carreira da banda, e os 50 do 25 de Abril.
Juntos desde ‘84, os Mão Morta sempre foram críticos mordazes: música repleta de fantasmas, becos e panópticos, até mesmo teorias da conspiração… Em Viva La Muerte!, Adolfo Luxúria Canibal desmonta a ascensão dos discursos fascizantes num monólogo cáustico que põe a nu a “falsa memória do passado”. Miguel Pedro e António Rafael são os arquitetos sonoros destas zonas sombrias. O resultado são 9 canções de intervenção para os nossos tempos.
Mas não se deixem enganar. Neste disco, não há espaço para saudosismo: a voz inconfundível de Luxúria Canibal mostra que o tema urgente precisa de uma língua afiada. Se quando o habitat do artista é ameaçado, ele tem de se fazer ouvir.
Na 8.ª posição, estamos numa pista de dança que pode, na verdade, ser qualquer lugar. É a premissa de Sudden Light, primeiro álbum em nome de MXGPU.
Não é a primeira vez que Luís Clara Gomes e Gui Tomé Ribeiro trabalham juntos. Há muito tempo que perceberam que havia química: na altura, o frontman dos Salto emprestava os dotes de guitarrista aos concertos de Moullinex live. Depois vieram as canções, dezenas delas, editadas pela Discotexas, e, em 2023, a primeira compilação assinada por Moullinex ▲ GPU Panic…Aos poucos, o todo começou a mostrar-se maior que a soma das partes… e a dupla percebeu que o “todo” precisava de um nome a meio-caminho entre os dois: M X G P U. Sudden Light é a oficialização da alquimia da dupla. Se fecharmos os olhos, lá estão eles: num palco 360º, ou como no vídeo-concerto Live Over Lisbon, numa plataforma suspensa sobre o Tejo, provando que “a onda súbita” de claridade está por toda a parte.
Em 7.º lugar, está mais um afortunado de dotes camaleónicos… É o homem dos sete ofícios, ou melhor, dos mil instrumentos, que faz de qualquer espacinho um laboratório sonoro. Adivinharam? É o Noiserv, pois claro!
7305 é o curioso título do álbum de David Santos. Explicamos: 7305 dias equivalem a 20 anos, e, ainda que ele mantenha a mesma cara de garoto, já anda nisto há duas décadas – o primeiro concerto de sempre foi a 19 de maio de 2005. Todos os clichês sobre o tempo se aplicam, mas ficamo-nos por este: é verdade quando dizem que ele voa.
Para marcar a efeméride, Noiserv apresentou 9 temas numa ode a ele mesmo: o tempo. 7305 é um trabalho auto-referencial, onde os anos mais importantes da carreira são destacados, sem deixar de olhar para o futuro.
Noiserv junta um grupo de amigos dedicado para dar corpo às canções. Afonso Cabral (colega de You Can’t Win, Charlie Brown), Best Youth, WE TRUST, os leirienses First Breath After Coma e Surma, Selma Uamusse, Tape Junk, A garota não… e, finalmente, Milhanas.
Femme Falafel, alter-ego de Raquel Pimpão, é natural das Caldas da Rainha, ostra criativa que, de quando em vez, nos presenteia com pérolas destas. Passou pelo Conservatório, andou na Escola Superior de Música de Lisboa e escutou todos os álbuns obrigatórios: de Kendrick Lamar a Miles Davis, de Black Eyed Peas a Strauss.
Já a vimos a tocar ao lado de Benjamim, Margarida Campelo ou Beatriz Pessoa… Em 2024, sob o calorabrasador de Cem Soldos, conquistou os fiéis do Palco Giacometti e mostrou aos Bons Sons o que se confirmou no álbum: Femme Falafel não é mesmo uma suserana qualquer.
Entre o jazz de Sonny Rollins, hip hop em rima cruzada e progressões marotas, Dói Dói Proibido é uma queixa das almas jovens ansiosas, corroídas pela crise climática e por fait divers corriqueiros…
Entre relações falhadas com “indie-mitras” de brinco e microdesastres do quotidiano, Femme Falafel planta, com humor, o caos e a vulnerabilidade em partes iguais.
Depois da revisão da matéria, entramos no top 5 com outro músico que fez de Londres casa, mostrando que a música portuguesa diz ‘presente’ globo-fora. O regresso de Vaiapraia contagia, mas ainda bem… Andamos todos a precisar de uma boa dose de Alegria Terminal.
Depois de editar 100% Carisma, álbum estrondoso editado no fatídico ano de 2020, a vida de Rodrigo Vaiapraia levou uma guinada de 180º. Deixou Setúbal, foi estudar para a Escócia, e estabeleceu-se em Londres. Trabalhou, revoltou-se (outra vez), compôs para teatro e cinema — e
tornou-se melhor compositor. Pegou em canções que já trazia na cabeça e exorcizou nelas a cólera dos sistemas que, repetidamente, nos deixam na mão.
A irlandesa Katie O’Neil convenceu-o a levar as canções que trauteava para o estúdio. Foi aí que procurou o direito à diversão dentro da síndrome de impostor e catalisou o medo para dançar topless no abismo. Inflamado pelas baquetas veementes de Ana Farinha, linhas de baixo de Beatriz Diniz e guitarra afiada de Chica, Alegria Terminal é resultado de um live-take gravado por Bernardo Ramos: meia hora de puro êxtase.
Em Ferry Gold, A Garota Não recupera os temas do seu cancioneiro, escavando ainda mais a ferida aberta do Portugal de hoje e amanhã. A metáfora é o catamaran gentrificado que leva hordas de “expats” a uma costa vicentina fechada em muralhas. Enquanto atravessa o Sado da sua infância, denuncia o país que negligencia o essencial, e que vende punhados de terra e de mar ao desbarato.
Na canção-título do álbum, a voz de Cátia Mazari Oliveira vai aos escritos de Saramago nos “Cadernos de Lanzarote”: “privatize-se tudo!”.
Para além do Nobel, evoca Allen Halloween, Florbela Espanca, Prétu Xullagi, ou Maria Teresa Horta, e ainda consegue fazer com que o flamenco de uma cantiga tradicional espanhola complete o mosaico.
Cátia conquistou muito mais do que um bairro com 2 de Abril: disco que a catapultou para o panteão da canção de intervenção portuguesa. Com Ferry Gold, a pegada alastra-se, mostrando que, mesmo quando é terna, a voz pode ser uma arma potente.
A entrada no milénio não nos deu os sapatos voadores de Marty McFly, nem casulos no planeta vermelho – pelo menos ainda… Mas, em contrapartida, foi terreno fértil para Samuel Úria, que, com 2000 A.D., sobe ao pódio dos Melhores Álbuns Nacionais.
O mesmo Samuel que, em Canções do Pós-Guerra, quis ser um “bardo de coisas claras no meio da escuridão”, revisita uma era que viu as promessas de prosperidade ruírem com as Torres Gémeas.
O membro da “geração esquecida” avança para 2000 A.D. a trote, mas encontra um lugar onde as dúvidas são tão densas quanto a poeira levantada no seu faroeste. A ternura universal acaba por dar de caras em “Daqui p’ra trás”, cantada a meias com Carol. Com Margarida Campelo, partilha a alucinação de “Kubisabiichi”. 2000 A.D. reconhece o pessimismo vigente que, ainda assim, não é suficiente para mirrar Úria. O
agitador de consciências tem no reacionário um inimigo e confirma que a palavra é o seu último reduto de lucidez.
Belonging é o primeiro disco de Lisa Sereno, alter-ego de Maria João Lameiras. Mistery, single de apresentação deste rebento da Omnichord Records, acertou em cheio no coração dos apaixonados pelas guitarras tocadas à lá Joni Mitchell.
A folk serena, moldada nos corredores do Orfeão de Leiria, é mote comum às 8 canções de um disco que é íntimo sem ser hermético. Em Belonging, a atmosfera enigmática encontra o equilíbrio raro entre a luz e a sombra que habitam a escrita das canções de amor. Lisa Sereno encontrou o seu idioma: é delicado, mas sabe onde se quer firmar e, sem rodeios, convida-nos a ficar lá também.
Chegamos ao primeiro lugar com um disco agridoce, que põe em xeque o ritmo esquizofrénico dos nossos feeds, alternados entre festas de gala e imagens de guerra.
A paisagem distópica é desafiada por quem quer resgatar a poesia que nos resta, e é nessa investida que encontramos a caneta afiada da “neta das bruxas que o lume não queimou”: Um Gelado Antes do Fim do Mundo, de Capicua, é o melhor disco nacional para a equipa da
Antena 3.
Já lhe conhecemos os cantos à casa, mas a verdade é que, a cada canção, Ana Fernandes convida-nos a mergulhar na reflexão inadiável.
Gentrificação, violência contra a mulher, a ascensão da extrema-direita… A paisagem que se pinta é rocambolesca e pouco apetecível. Capicua alerta para as adversidades com a centelha bem acesa, amplificando inquietações com versos “rappados, declamados e cantarolados”.
Um manifesto ao encantamento que ainda pode existir no meio de tanto sangue, suor e lágrimas. Sem consolo para as maleitas, a rapper ergue o punho sem descanso e transforma cada verso numa bandeira de resistência. Entre a fúria e a ternura, o desconcerto e a esperança, um disco que reafirma que, mesmo quando o mundo parece ruir à nossa volta, ainda há espaço para sonhar. É vestir a armadura, sair à rua e saborear Um Gelado Antes do Fim do Mundo.