Ganhar no FC Porto não é apenas uma ambição. É uma obrigação. E, para Fernando Sá, até um segundo lugar pode ser considerado uma época falhada.
Recém-coroado campeão nacional pelo FC Porto, o treinador foi o convidado do mais recente episódio do Triplo Duplo, onde falou sobre a conquista de um título que escapava aos dragões há dez anos, a pressão de liderar uma equipa num clube com uma exigência muito particular e as decisões difíceis que acabaram por mudar o rumo da época.
Ao longo da conversa com David Reis e Pedro Lourenço, Fernando Sá explica que o campeonato começou a ser ganho muito antes da final. Uma das decisões mais difíceis da temporada passou por deixar de contar com um jogador, num contexto em que o plantel tinha vários estrangeiros de elevado rendimento. Segundo o treinador, a decisão acabou por ter um efeito decisivo no grupo: a equipa estabilizou emocionalmente e tornou-se mais unida.
A partir daí, a conversa entra num dos grandes temas do episódio: o que significa realmente gerir uma equipa profissional? Fernando Sá compara o trabalho do treinador à construção de um puzzle, onde uma única peça pode afetar todas as outras. E reconhece que, por vezes, os treinadores insistem demasiado em tentar resolver problemas que talvez exigissem simplesmente uma decisão.
A conquista do campeonato trouxe finalmente o título que o próprio Fernando Sá tinha como objetivo desde que regressou ao FC Porto como treinador. Mas a felicidade foi acompanhada por uma sensação diferente: alívio. A pressão, sobretudo num clube como o FC Porto, não desaparece quando se ganha; simplesmente muda de lugar.
“É muito mais alívio que felicidade.”
O treinador fala ainda sobre aquilo que torna o FC Porto particularmente exigente. Num clube onde o futebol estabelece uma fasquia elevadíssima, as expectativas acabam muitas vezes por ser transportadas para outras modalidades, mesmo quando as estruturas, os investimentos e as condições são completamente diferentes.
Mas Fernando Sá também mostra que a pressão não pode ser confundida com viver permanentemente sob tensão. Para o treinador, o trabalho deve ser construído diariamente: a exigência tem de estar presente durante a semana, nos treinos e na preparação, para que o jogador não chegue ao jogo condicionado pela pressão.
Outro dos grandes temas da conversa é a liderança. Fernando Sá rejeita uma liderança baseada exclusivamente na distância e na autoridade e defende uma relação mais próxima com os atletas, sem perder o rigor e a exigência. Conhecer os jogadores, perceber os problemas pessoais e saber quando alguém precisa de um apoio adicional também faz parte do trabalho do treinador.
Há ainda uma viagem ao passado, aos anos em que Fernando Sá era jogador e capitão do FC Porto. Os antigos companheiros recordam-no como uma figura fundamental no balneário, alguém que conseguia colocar calma quando as coisas se complicavam e que liderava sobretudo através do exemplo.
A conversa termina com uma reflexão mais ampla sobre o basquetebol português, a diferença entre a cultura desportiva atual e a de outras gerações e a importância de recuperar valores como trabalho, respeito e capacidade de merecer aquilo que se conquista. Para Fernando Sá, esta mudança não depende apenas do basquetebol: é também um desafio social e cultural.
Mais do que uma conversa sobre o título do FC Porto, este episódio é uma viagem à cabeça de um treinador campeão: a pressão, as dúvidas, as decisões difíceis, a gestão das pessoas e a enorme responsabilidade de representar um clube onde ganhar nunca parece ser suficiente.