Luís Varatojo: “Gosto de olhar para o futuro e de inventar. Não gosto nada de me repetir”

Luís Varatojo, criador da Luta Livre, projeto com o qual editou no ano passado o terceiro disco, Contrafação, não é um músico interessado em repetir o passado. Mesmo tendo fundado alguns dos projetos marcantes da música portuguesa das décadas de 1980, 1990 e 2000 — Peste & Sida, Despe e Siga, Linha da Frente, A Naifa e Fandango —, observa a própria carreira com distância e orgulho, mas sem vontade de regressar a fórmulas antigas. “Gosto de olhar para o futuro. Gosto de inventar. Gosto de me pôr a fazer coisas que talvez ainda não tenha feito. Eu não gosto nada de me repetir.”

A ideia atravessa toda a conversa desta semana no Vocês Sabem Lá, com o Bruno Martins. Quando se levanta a hipótese de recriar projetos antigos, Varatojo é taxativo: “Ir buscar esses projetos e fazer um revival é uma coisa que a mim não me entusiasma nada.” E explica essa recusa em termos quase ideológicos: “O punk apareceu para arrasar com o que estava para trás” e, por isso, “fazer exatamente o contrário disso é ir contra tudo aquilo que deve ser.”

Luís Varatojo faz também questão de afastar o punk de uma ideia de género musical fechado em duas guitarras e três acordes. Sorri quando diz que “o punk é de todos” e que isso significa que não é pela velocidade ou pela distorção das cordas que se define o que é música punk, mas antes em “fazer algo contra aquilo que está a acontecer”, através de uma atitude de confronto e autonomia criativa, muito próxima do espírito do do it yourself que o músico advoga.

Essa visão vem diretamente da experiência que teve nos Peste & Sida, banda que Varatojo recorda como uma experiência “irrepetível”. Ao recordar os primeiros anos, fala da adrenalina do ensaio, da construção coletiva das canções e da energia de um grupo em que tudo se fazia depressa, em cima do impulso e da urgência — uma forma de trabalhar que, para ele, resume bem o que o punk significou na prática.

O percurso da banda passou também por vários nomes antes de se fixar. Varatojo lembra que houve uma fase de “Peste” e depois “Pastel Pop”, entre outras metamorfoses, até chegar à designação final. E há episódios que ajudam a perceber a energia desses primeiros anos: as idas para a Fonte da Telha depois das noites em Lisboa, quando o grupo ia “passar a noite à Fonte da Telha” e acabava a acordar “com o sol a pina às sete da manhã” para mergulhar logo a seguir. Houve também uma dimensão artesanal, quase formativa, nesses começos: a banda chegou a construir um palco de madeira e a montar um concerto com uma aparelhagem emprestada pelos Xutos & Pontapés.

 

Três discos, três fases

O seu projeto mais recente, Luta Livre — arrancado a solo em 2020 — é hoje o centro do seu trabalho. No final do ano passado editou Contrafacção, terceiro volume de uma trilogia iniciada com Técnicas de Combate (2021) e seguida por Defesa Pessoal (2023). Tem sido um disco de dois em dois anos.

Varatojo resume a evolução destes álbuns como uma espécie de mapa de intenções e mudanças: no primeiro escreve sobre “coisas tão genéricas como o que é a política”, no segundo prefere “histórias mais pessoais” e no terceiro olha para “comportamentos”. No seu conjunto, diz, os discos formam “um retrato da paisagem que nos rodeia” e partem de uma ideia de participação cívica, coletividade e inquietação social. “A política é nós participarmos na vida pública, sermos cidadãos ativos.”

Para lá da escrita — e da forma de a abordar —, a entrevista mostra também uma clara transformação sonora. Varatojo descreve o percurso da Luta Livre como “um processo de simplificação em curso”: o primeiro disco nasceu de “samples de discos de jazz”, o segundo puxou mais pela guitarra elétrica e o terceiro surgiu depois do desafio do Festival Política para trabalhar canções com uma base mais acústica.

 

Vocês Sabem Lá é um programa e um encontro semanal na Antena 3 com figuras das artes em Portugal. Todos os domingos, às 11h, Alexandre Guimarães, Bruno Martins, Luís Oliveira, Mariana Oliveira, Marta Rocha e Teresa Oliveira, à vez, recebem diferentes protagonistas para uma entrevista sobre música e outras conexões.