Catarina Fernandes esteve à conversa com Courtney Barnett a propósito do novo álbum Creature of Habit, lançado dia 27 de março, com selo Mom+Pop Music. Uma conversa que passou pelo regresso inevitável à música, a arte e filosofia de Georgia O’Keeffe, o deserto de Joshua Tree, um louva-a-deus e pela importância de levar a vida com (muita) curiosidade.
Olá, Courtney. Antes de mais, parabéns pelo novo álbum [Creature Of Habit]. Folgo em saber-te bem, sei que foram anos turbulentos. Estiveste deprimida e sem saber se irias continuar a fazer música. No entanto, cá estamos. O que te trouxe de volta outra vez?
Estou ótima, obrigada. Acho que naturalmente continuei a encontrar o meu caminho de volta para a música. Percebi que é para lá que eu vou para me entender a mim mesma e para descobrir coisas. Escrevo para entender o que está a acontecer na minha cabeça. Então, mesmo com todas essas dúvidas e com a depressão, eu dou por mim de volta a fazer música, porque é o que eu adoro fazer. Isso é incrível.
Sei que Georgia O’Keeffe foi um pedaço importante do puzzle. Eu queria saber quando e como é que encontraste, em particular, o livro de receitas dela. Enfim, qual é a tua história com O’Keeffe?
Sim, ela é uma artista incrível. Eu conheço o trabalho dela há muito tempo, mas durante o tempo que vivi em Joshua Tree, acumulei alguns livros sobre ela. Enquanto eu escrevia o Creature of Habit, lia biografias e livros sobre ela, e estava sempre a ver o seu trabalho. O livro de receitas tornou-se uma presença na minha vida. Acho-a uma pessoa realmente inspiradora, uma grande artista.
O que te atrai particularmente na filosofia da arte de O’Keeffe?
Tenho algumas coisas dela que escrevi, coladas na parede à frente da minha mesa. Para mim ela é poderosa, confiante no que fazia. Nunca deixou ninguém pressioná-la. Gosto muito da maneira de como se aproximou da arte, ela viveu a vida dela como uma artista. A estética na sua vida era importante, assim como a casa dela. Admiro-a muito. O’Keeffe disse algo sobre ser constantemente curiosa. Adorei o conceito e agarrei-o. Muitas vezes atrapalho-me nas pequenas coisas ou preocupo-me muito com o resultado de algo, invés de estar curiosa durante o processo. Segundo O’Keeffe, não nos podemos focar na felicidade, uma vez que é um sentimento temporário, mas em ser e permanecer curiosa na vida.
Georgia O’Keeffe (1887–1986) é considerada a “Mãe do Modernismo Americano”. Foi uma figura central no desenvolvimento da arte moderna nos Estados Unidos, desafiando as convenções artísticas da sua época com um estilo único que transitava entre a abstração e o realismo.

Receitas culinárias de O’Keeffe.
A canção “Another Beautiful Day” parece marcar o tom do resto do disco, mas canções como “Sugar Plum” ou “One Thing At The Time” parecem-me as mais “cruas”. A verdade é que sinto que a tua música nunca soou tão vulnerável e aberta como em 2026. Sentes o mesmo?
Para mim é difícil dizer, mas eu acho que [Creature of Habit] é o meu melhor álbum até agora. É o melhor conjunto de canções que já escrevi. Este disco emociona-me. Sinto que fui muito vulnerável mas também me diverti imenso e entreguei todo o meu coração. Lutei muito durante o caminho, tive muitos altos e baixos e duvidei imenso. Às tantas, tive um bloqueio criativo, não conseguia terminar as letras… Mas continuei a trabalhar mesmo muito e ajudou-me durante esta parte da minha e estou muito orgulhosa do resultado.
O álbum parece um filme coming of age. Cada música, um novo capítulo. Embora tenha muita escuridão dentro dele, transmite, sobretudo, muita luz. Tu própria sentes que é o teu melhor trabalho até agora. Como vês este passo na tua carreira?
A vida é cheia de novos capítulos e tenho sorte: cada álbum vive aproximadamente quatro ou cinco anos: desde escrever até o apresentar ao vivo numa digressão. É um pequeno espaço de tempo, mas ao mesmo tempo a vida muda muito em cinco anos. Então se virmos cada um dos meus discos, existem grandes saltos de tempo e idade. Sinto-me muito feliz porque posso documentar a minha vida através do meu trabalho. Posso olhar para trás e perceber o que senti, o que disse. É incrível poder experimentar tudo isto.
Falavas da vida de um disco, mas gostava de saber como foi o processo durante o Creature of Habit. Como foi no estúdio: demasiado intenso ou catártico?
Foi muito equilibrado, tive tantos momentos negativos como positivos, mas adorei o processo, mesmo as partes difíceis. Consegui trabalhar com pessoas incríveis, gravamos no deserto, em Los Angeles também, escrevi em toda a parte, toquei com músicos incríveis… Foi realmente muito bonito.
Não são todos os artistas que fazem (parte de) um disco no deserto. Como é que isto acontece?
Sim, eu estava a viver lá. Vivi em Joshua Tree por pouco tempo, mas coincidiu com o início das gravações do álbum. Depois mudei-me para Los Angeles e acabámos por terminar o disco lá. Mas escrevi grande parte do disco enquanto morava em Joshua Tree. Talvez seja por isso que o disco se sente um pouco por todo o lado.

O deserto de Joshua Tree.
Muitos sítios e muita mudança. A mudança é, justamente, um tema recorrente no disco. Sendo assim, porquê chamar o disco de Creature of Habit?
Eu gosto da contradição. Na minha cabeça há essa dinâmica do puxa e empurra, estas ideias contraditórias. Querer estar confortável, mas querer mudar. É algo engraçado que tenho dentro de mim e tenho a certeza que outras pessoas também terão. O próprio conceito de ser uma criatura de hábitos é muito interessante. Explorei muito os hábitos que temos enquanto pessoas, os padrões comportamentais.. Os maus, os que não nos servem, aqueles que queremos mudar…. Construir novos padrões e novos caminhos, no fundo.
Gostava de falar sobre a capa do álbum. Muito kafkaniana, não é?
Que engraçado, é isso mesmo. És a primeira pessoa a falar sobre isso. Eu acabei a “Metamorfóse” do [Franz] Kafka quanto estava a terminar o álbum. Eu adoro a capa. As fotos são de um artista chamado Lilo Hess. A imagem fez todo o sentido. Eu vi esse louva-a-deus e depois é que escrevi a “Mantis”. Foi um momento mesmo importante, sentia-me muito perdida e depois vi esta pequena criatura e parecia que me estava a tentar dizer algo, como se estivesse a apontar para uma nova direção. Foi um momento crucial para o álbum, por isso é que a imagética do louva-a-deus se repete.

A “Mantis” traz-te de volta à Austrália? Como é que a tua música e a natureza estão conectadas?
Estar na natureza é tão importante para mim; preciso disso na minha vida. Quando me mudei para a América, quando eu estava em Joshua Tree… Foi isso que me levou para esse lugar, estar no Parque Nacional e fazer essas escaladas, em grandes montanhas.. Até mesmo em Los Angeles e nos arredores, há lugares lindos. Este fim de semana fui para um lugar chamado Mount Baldy, a uma hora do centro da cidade. É, basicamente, uma grande montanha, foi impressionante. Senti como se estivesse no meio de lugar nenhum, como se estivesse num lugar muito longe… Para mim é essencial encontrar tempo para estes momentos, encontro muita paz e gratidão na natureza.
Queria falar-te também de uma música em particular, a “Great Advice”. É uma crítica à indústria da música ou aos chicos espertos, no geral?
Pode definitivamente ser isso! Mas para mim é sobre explorar a ideia de crítica construtiva. Como responder ou não, se ficamos na defensiva ou realmente ouvimos. A música explora isso.
A “Site Unseen” é uma canção maravilhosa para fechar o disco. Como se deu a colaboração com Waxahatchee?
Então, eu escrevi essa música no começo do processo de produzir o álbum e gravámos várias vezes, mas eu nunca consegui que ficásse exatamente como eu queria. Mas assim que escrevi a canção, senti que valia a pena lutar por ela, por isso, continuei a gravar e a tentar. Mas depois, finalmente, perguntei à Kathy [Crutchfield] de Waxahatchee se ela queria cantar na música, porque eu imaginei a voz dela nas harmonias da canção. É uma artista que adoro, adoro as letras das canções dela… Sinto que a música acabou por ficar como eu imaginava, graças a ela.
Cantas “It’s a humbling practice to be a beginner again“. Como corre a experiência?
Estou a abraçar a vida com curiosidade. A olhar para a vida como um processo de aprendizagem. Há sempre algo novo. Estou sempre a tentar ganhar mais conhecimento ou simplesmente a manter uma mente aberta. Ver onde isto me leva.
Pergunto ainda: alguns planos futuros para apresentar o novo disco em Portugal?
Ainda não, mas quero muito voltar.
Muito obrigada, Courtney!
Entrevista: Catarina Fernandes