Catarina Fernandes conversou com o líder de Wilco, Jeff Tweedy. O músico norte-americano vem apresentar, a solo, Twilight Override, álbum triplo, em Lisboa, no Capitólio, num concerto com apoio Antena 3.
Transcrição da entrevista completa
Catarina Fernandes: Olá, Jeff. Gostava de começar por algumas memórias felizes. Tu estiveste com os Wilco no Festival Vodafone Paredes de Coura. O que te lembras do verão em que andavas em digressão com Cousin?
Jeff Tweedy: A minha cabeça fica muito confusa em digressão. Então não me lembro bem… mas lembro-me de adorar Portugal e do tempo que lá estivemos. Sempre achei Portugal lindo. E estiverem dias lindos, deu para aproveitar a cidade. Lembro-me de estar perto da praia…
C: Mais pela zona de Lisboa, então, dirias?
J: Sim, sim!
C: Espero que estejas entusiasmado em voltar a Portugal. Agora estás de regresso a solo, com Twilight Override. Há alguma diferença entre escrever músicas para o Wilco e escrever músicas “só” para ti, para o teu projeto a solo?
J: Normalmente, não. Tenho uma série de músicas e as canções que a malta de Wilco gosta, tornam-se músicas de Wilco. Ultimamente, escrevo com um som específico na minha cabeça… As músicas que acabam nos meus são aquelas que não podem ser expandidas para um arranjo de seis peças, com um arranjo de uma grande banda.
C: E a ideia do álbum triplo: é influenciado pelo Sandinista dos The Clash. Quando eu penso em álbuns triplos, penso imediatamente em Bob Dylan, nos The Magnetic Fields, na Joanna Newsom… Mas o que fez o Sandinista por ti? Já tinhas em mente escrever um álbum triplo, foi algum conceito que te atraiu?
J: Não, eu acho que a única coisa que o Sandinista realmente fez… Bom, foi um álbum triplo que apareceu quando eu era criança; então foi uma das minhas primeiras exposições ao conceito de um grande álbum triplo. Não me influenciou musicalmente. Aliás, não pensava em álbuns triplos há algum tempo, mas depois Cindy Lee lançou um álbum triplo [Diamond Jubilee]… Em relação ao Sandinista, nós ouvimos, eu e os meus filhos, no carro, numa viagem de carro muito longa, e a partir daí começou a pairar sobre a minha cabeça. Comecei a pensar: “O que se pode fazer com um álbum triplo? Devia tentar fazer um álbum triplo”. E olhei para isto como… a maioria das vezes, os artistas fazem um álbum triplo, com o objetivo de esticar canções, fazer peças experimentais e mais longas e coisas assim, como o Sandinista. Até acho que é no Sandinista que existe a mesma música, mas tocada ao contrário. Eu pensei na oportunidade de juntar 30 pequenas histórias num “livro” maior do que o normal.

C: Twilight Override parece, não uma pequena mas uma grande flor. Como é que permaneces tão inocente, cândido?
J: Eu acho que és responsável por ti mesmo e responsável por ensinar como ser gentil e não magoar os outros. Isso leva tempo, honestidade contigo mesmo. Tens de “eliminar” coisas que te deixam menos íntegro contigo mesmo. O teu ego deixa-te menos honesto. Descobrir como continuar humildade é bom para toda a gente. Podes pensar em grande, ser ambicioso e ser uma boa pessoa na mesma… Sem sentir que isto é uma competição. Mas, não sei… Ficar com as pessoas ao invés de outras coisas.
C: Na Pitchfork, dizem algo como, o teu novo disco tem 1 hora e 51 minutos longas. ”Esse também é o tamanho que o coração de Jeff Tweedy cresceu”. O que é que tantas canções te deram, e por outro lado, te tiraram? Se é que te tiraram algo…
J: A única coisa que realmente tirou foi tempo. Mas, sabes… Isso é uma comodidade rara. Mas é o trabalho que adoro fazer. Além disso, consigo fazer isto com a minha família.
C: Tens os teus filhos neste disco também. Como é a dinâmica?
J: Nós temos uma “banda” juntos, desde que eles são crianças. Foi só uma questão de tempo antes que eles pedissem para participar nos meus álbuns. O Spencer está em montes de discos, a tocar bateria. Recentemente, o Sammy decidiu que… bem, demorou mais tempo. O Sammy, o mais novo, canta muito bem Mas está mais interessado em música eletrónica, com sintetizadores. Não havia muito espaço para ele na minha música. Mas fazemos um monte de canções juntos, com noise, numa banda chamada The Raccoonists. Não há nada lá fora, nada que se possa ouvir. *risos*

C: Então é só um projeto de família? Uma espécie de side quest musical?
J: Sim! Os pais americanos saem e jogam futebol com os filhos. Este pai americano senta-se no chão e faz noise com eles. É uma atividade normal para nós. Fazemos noise e improvisamos música. E é a esta a tradição musical na minha família. Estou muito agradecido pelo facto de ainda querem juntar-se comigo a fazê-lo.
C: Por falar em família… Dizes na tua canção que Lou Reed foi o teu babysitter. Quem achas que te teve a ti como babysitter? Aposto em Cameron Winter…
J: Sabes o que quero dizer com isso, com certeza… Os álbuns fazem-te sentir menos sozinho. Foram os discos que me mantiveram companhia ao longo da minha vida. Senti-me acarinhado, amado. E isso é mágico. Há algo verdadeiramente mágico sobre a música e discos. O som estar contigo num quarto… e nunca te deixa. É um antídoto para a solidão. É uma ótima consolação. Então, não consigo pensar numa pessoa específica… Mas assumo que se ainda faço música depois de 30 anos, deve ser porque algumas pessoas encontraram esse calor na minha música.
C: Com certeza. Mas voltando a exemplos como Cameron Winter. É empolgante para ti enquanto músico com uma carreira tão consolidada ver outras bandas rock como os Geese surgirem?
J: Muito empolgante. Sou amigo do Cameron Winter há algum tempo. Foi muito emocionante vê-lo num pequeno clube em Chigago e depois no Carnegie Hall, em menos de um ano. Os Geese são o que uma banda de rock jovem deveria ser, na minha opinião. Ele é um talento único. É incrível puder testemunhá-lo. Cindy Lee também é maravilhoso. Water From Your Eyes, Horselords… há imensas bandas! Nós fazemos um festival, o Solid Sound Fest, todos os anos. É uma oportunidade de encontrar pessoas que fazem música que nos impressiona ou toca. E encontramos sempre velhos amigos lá.
C: Em 2026, encontraste com o teu velho camarada Billy Bragg. Tocam juntos até.
J: Sim e nunca o fizemos. Nunca fizemos um concerto com o material que temos juntos.
C: O panorama norte-americano está muito complicado, vivem uma era particularmente negra e assustadora. Encontras esperança no mundo em que vivemos ou a música é apenas uma forma de resistir?
J: A música é um ato de criação poderoso. A luz faz a escuridão desaparecer. Não fazer nada não é uma consoloção para as pessoas. A música ajuda-as a sentirem-se livres, nem que seja por alguns minutos. Acho isso muito esperançoso e a música implica que há um futuro, a música muda com o tempo…. Estás no presente quando tocas, mas sabes que há um futuro e acho que isso é esperançoso. Há muita política envolvida no ato de fazer arte, sem ser explicitamente política. A principal coisa assusta governos totalitários, autoritários, tirantes… é a comunidade. E a música é exímia no que toca a trazer as pessoas juntas e a formar uma comunidade importante. Acho que precisamos de fazer mais isso. Na minha experiência, nos últimos dez anos, sinto que hoje a música é cada vez mais importante para as pessoas e as precisamos mais e mais dela. Sinto uma responsabilidade doce em continuar a fazer música, porque posso e porque se podes reunir esperança, deves fazê-lo. Se estás numa posição em que podes preservar um mundo que valha a pena salvar ou lembrar as pessoas que o mundo não precisa de ser assim, lembrar as pessoas que têm a capacidade de criar, de não se dividirem. Tomarmos conta uns dos outros. Tudo isso é comunicado na música, sem ser preciso se quer uma letra. Não sinto que esteja a salvar o mundo com a minha música, mas neste ponto na minha vida, sinto-me confortável para dizer que partilhar algo, mostrar alguma vulnerabilidade interna e dar a alguém a coragem de enfrentar também é muito importante e uma forma de resistir.
C: A digressão europeia começa em Lisboa, Portugal. No teu site, vi que há a possibilidade de pedir canções para o concerto no Capitólio e no resto da digressão. Achei muito curioso. No teu livro “Como Escrever uma Canção”, falas da importância em mostrar as nossas canções a quem gostamos mais. Esta oportunidade para pedir canções específicas também é uma forma de abraçar a comunidade que conseguiste criar?
J: Claro. É para isso que eu vou lá estar. Para cumprir o “desejo” de alguém. Estou muito entusiasmado com esta digressão. Faço uma nota das canções que foram pedidas, mas não tenho um alinhamento concreto. Começo uma canção, entro na cena e começo a pensar no que vou tocar a seguir enquanto toco uma. E assim, em cada concerto, acabo sempre por tocar músicas diferentes. E isso também torna os concertos especiais.
C: A vida na estrada está prestes a arrancar. Serve para escrever canções, sentes alguma inspiração em todas as viagens ou na rotina da estrada?
J: Eu estou sempre a trabalhar em canções, sim. E não, não estou sempre inspirado. Acho que essa é uma das coisas que as pessoas não entendem sobre ser um cantor prolífico… não significa que tens mais inspiração, só significa que fazes mais. E como fazes, tens potencial para te inspirares, porque agarraste na guitarra e na caneta. E a inspiração acaba por surgir. Também aprendemos [eu e a minha banda] e tocamos muitas canções de outras pessoas. Em cada noite, em cada concerto, tentamos tocar uma canção específica de determinada região, país, estado…
C: O que tens programado para Portugal?
J: Ninguém fala português, então… o mais provável é fazer uma cover de David Bowie ou algo assim.
C: Também ficamos muito bem servidos! Obrigada, Jeff.
Recorda o especial de Catarina Fernandes e Luís Oliveira sobre os Wilco.