Em La Voyage Dans La Lune, filme de Georges Méliès considerado o primeiro filme de ficção científica de sempre, o professor Barbenfouillis viaja com a sua troupe de astrónomos até à Lua. Lá, encontram um grupo de habitantes, os selenitas. Segue-se a tentativa de uma colonização lunar, uma guerra armada entre os nativos extraterrestres, semelhantes aos “selvagens” dos álbuns ilustrados do século XIX, que caricaturavam povos distantes e as suas contendas.
No passado dia 21 de novembro, o Fórum das Mulheres Trabalhadoras das Imagens em Movimento recebeu a masterclass “Descoloniza-te com a ficção científica” onde a atriz, guionista e assessora de diversidade espanhola Beatriz Mbula, usa o filme de Méliès como um dos vários exemplos em que ficção científica tem como paralelo a narrativa colonial.

Nesse sentido, abarca a tradição de literatura especulativa negra de Maria Firmina dos Reis, W. Du Bois, Martin Delaney, Pauline Hawkins ou Edward A Johnson que, na obra “Light Ahead for the Negro”, imaginava como viveriam os negros em 2006. Dá a conhecer o Tratado de Laval, que exigia autorização ministerial para filmar em territórios coloniais franceses, o que dificultava a produção cinematográfica por parte dos realizadores africanos.
Passando pela obra de autores hoje consagrados da filmografia africana como Djibril Diop Mambéty, Ousmane Sembene ou Souleymane Cissé; pela Blackxploitation e, mais tarde, pela “democratização” das narrativas negras (ainda que muito etiquetadas) dos modos de produção americanos — em filmes como “Men in Black” ou “Um Príncipe em Nova Iorque”, Beatriz Mbula traz-nos conselhos sobre como “ativar a consciência crítica” e “transcender imagens estereotipadas” que se reproduziram ao longo da história do cinema.
A temática do Fórum MUTIM 2025 foi pautada por questões de diversidade e inclusão. Ao longo de dois dias debateu-se, no Goethe Institut, questões de interseccionalidade, diversidade e inclusão no panorama do audiovisual português e europeu.
Representantes de diversas associações que promovem a paridade no setor audiovisual como a Filtonfrauen (Alemanha), Le Collectif 50/50 (França), Reclaim the Frame (Reino Unido), e pessoas como Beatriz Mbula, assessora de diversidade ou Julia Duarte, membro do comité de seleção do Festival de Locarno, estiveram em Lisboa para discutir medidas para a diversidade no setor.
A Antena 3 esteve presente no segundo dia do Fórum e conversou com Mariana Liz e Rita Benis, integrantes da direção da MUTIM, sobre as a evolução que se viu no setor de 2023 — ano do primeiro Fórum — até 2025; e sobre as principais conclusões destes dois dias de debates e masterclasses.
Texto de Kenia Nunes