Nos primeiros segundos de 2026, Miguel Araújo lançou um novo álbum de originais, Por Fora Ninguém Diria.
A frase surge quase como um murmúrio emprestado, apanhado numa conversa entre amigos, a comentar a separação inesperada de outros amigos. Parecia que estava tudo bem. Parecia. Por Fora Ninguém Diria acaba por se transformar numa espécie de lente para olhar o novo disco de Miguel Araújo: um trabalho atravessado por separações, afastamentos silenciosos, rachas que não se anunciam, mas que existem. Canções que não gritam o fim — antes o sussurram, com aquela delicadeza desconcertante que torna tudo ainda mais real.
É no Estúdio Chiu, o estúdio-casa onde Miguel grava e produz toda a música que faz, que estas histórias ganham forma. Um espaço íntimo, quase doméstico, onde tudo acontece longe dos holofotes. Neste novo disco, ele toca todos os instrumentos. Tudo passa pelas suas mãos, pelo seu ouvido, pela sua obsessão pelo detalhe. Ainda assim, há uma confissão deliciosa, dita entre risos, que desmonta qualquer ideia de controlo absoluto: “eu nem sequer sei ligar o computador do meu estúdio”. Há qualquer coisa de profundamente Miguel Araújo nesta contradição — o artesão minucioso que, ao mesmo tempo, se move por instinto, por acaso, por uma certa desordem criativa.
A música não começou como um lugar confortável. Pelo contrário. O início foi marcado pelo pânico, pelo pavor da exposição, pelo medo quase físico de subir a um palco. A ideia de ser visto, ouvido, avaliado, parecia maior do que a vontade de cantar. Ainda assim, as canções existiam. E algumas dessas primeiras canções ficaram guardadas no tempo — literalmente. Há um momento bonito em que Miguel pega no telefone para mostrar uma gravação antiga: a sua voz com 15 anos, a cantar uma música que escreveu nessa altura. É um instante de suspensão, como se o tempo desse um pequeno nó, ligando o rapaz tímido ao músico que hoje enche arenas.
O processo criativo continua a ser tudo menos linear. Miguel regista ideias como quem apanha borboletas em voo: um assobio, um cantarolar, uma frase solta, tudo gravado em áudios no telemóvel, quase sempre sem nome. Ficheiros anónimos, à espera de um reencontro. Depois, volta a eles ciclicamente, escava, junta peças, percebe que ali estava qualquer coisa. Há também a perda — recorrente, inevitável. O telefone avaria, as gravações desaparecem, vão à vida. Fala-se disso com uma mistura de resignação e humor, como quem aceita que a criação também é feita de apagamentos. E quando ele mostra alguns desses áudios, fica a sensação de se estar a espreitar o lado mais secreto do processo. Em jeito de revelação cúmplice: “sabem o que está no telefone do Miguel Araújo…?”.
Essa vulnerabilidade atravessa também os grandes momentos. Em novembro do ano passado, o concerto na MEO Arena era para ser uma celebração. No próprio dia, acordou doente. Ao longo das horas, foi piorando. Febre, cansaço, o corpo a falhar. Mais tarde, viria a saber que era covid. Mesmo assim, sobe a palco. A meio do concerto, perde a voz. Literalmente. O que acontece a seguir foge a qualquer guião: o público percebe, acolhe, canta com ele. Leva-o ao colo, canção após canção, até ao fim. Miguel fala desse momento como “o pior e o melhor concerto da sua vida”. O pior, pelo medo e pela fragilidade extrema. O melhor, pela prova absoluta de que a música, quando é verdadeira, deixa de pertencer só a quem a escreve.
No fundo, talvez seja isso que atravessa todo este disco e estas histórias: aquilo que não se vê por fora. O que se passa por dentro, mesmo quando ninguém diria.