São quase 30 anos a fazer música. Desde os tempos do hardcore em Sacavém – a meias com a aprendizagem da bateria numa banda filarmónica – até aos palcos com a bateria siamesa dos Paus; das pistas de dança e bailes dançantes dos Bateu Matou até ao novo fôlego punk dos Mães Solteiras. E em 2026, esta voz (e barba, claro) tantas vezes reconhecível da nossa música vive um ano : a enterrar uma banda e a inaugurar outra, quase ao mesmo tempo.
Os Paus, que editaram este ano o último disco da carreira, “Enterro”, vão morrer oficialmente a 29 de novembro, dia em que a banda completa 18 anos. Para Quim Albergaria, é o fechar de um ciclo partilhado com Hélio Morais, Makoto Yagyu, Fábio Jevelim (e, no início, João “Shela” Pereira). Um ciclo que Quim descreve como sendo a sua “maior relação”. “Esta morte foi uma decisão”, explica. E uma forma, diz, de recuperarem o controlo sobre a própria narrativa, numa altura em que sentiam estar a perder relevância: “Ao decidirmos acabar agora, é a melhor forma de controlarmos o fim dessa história.”
Mas se há despedida de um lado, por outro há o novo entusiasmo juvenil de uma banda que acaba de nascer. No ano em que se mata uma, nasce outra: Mães Solteiras — com Ricardo Martins, André Henriques e Pedro Cobrado — nasceu como regresso à urgência do punk. “Vamos Ser Breves”, título do disco, “é uma carta de amor ao lado imediato do punk”.
E é precisamente aqui que se percebe o motor, com muitos cavalos de potência, que atravessa tudo o que Albergaria faz: a recusa categórica da repetição. “Eu tenho zero interesse em ser essa pessoa que faz a mesma música todos os dias”, afirma, sublinhando quem, para ele, fazer música é pensar “em desafios, aprender coisas novas” e procurar aquilo que ainda não foi feito. Até o tédio, diz, é informação: “Interpreto o tédio como: ok, tens que pensar em qualquer coisa pra fazer.”