A Berlinale mantém um ritmo intenso ao longo dos seus vários dias, com estreias mundiais diárias e sessões esgotadas que tornam difícil a tarefa de conseguir bilhete, mesmo para profissionais acreditados da indústria e da imprensa. Antes de olhar para os títulos em competição, o destaque vai para uma das sessões mais aguardadas desta edição, exibida fora de competição numa gala especial: The Blood Countess.
O filme traz para o centro da narrativa a figura de Elizabeth Bathory, interpretada por Isabelle Huppert, sob a realização de Ulrike Ottinger, cineasta alemã que esteve em destaque em 2021 numa grande retrospectiva no Doclisboa. Ottinger regressa assim à longa-metragem com uma obra que parte do imaginário vampírico associado à condessa, conduzindo o espectador por uma Viena estilizada onde a protagonista procura um livro capaz de ameaçar a existência dos vampiros. Segundo a lenda apresentada no filme, se um vampiro chorar e as lágrimas tocarem esse livro, torna-se mortal. Acompanhada por uma fiel criada, Bathory percorre a cidade determinada a destruir o objecto.
O filme abre com a apresentação dessa lenda e rapidamente se afirma pelo arrojo visual. Um dos momentos mais marcantes surge na cena de introdução da condessa: envolta em vermelho, a personagem aparece com um vestido-embarcação que navega por um lago subterrâneo, numa das mais exuberantes criações de guarda-roupa recentes. O tom é assumidamente excessivo e carregado de simbolismo, mas também leve e irónico. Entre vampiros vegetarianos e terapeutas humanos, vampirólogos, polícias e uma dupla de vampiras empenhada em salvar a sua espécie, a narrativa constrói um universo assumidamente fora do convencional.
Entre as surpresas do elenco está Conchita Wurst, conhecida do público pela vitória na Eurovision Song Contest 2014, que se estreia aqui como actriz de cinema. A participação não se limita a um simples cameo: interpreta três papéis distintos e protagoniza um momento performativo que se destaca como um dos pontos altos do filme.
Aos 83 anos, Ulrike Ottinger demonstra vitalidade criativa e prazer em trabalhar com a equipa reunida para esta produção, algo que transparece no ecrã. Entre o requinte do guarda-roupa, o cuidado dos cenários e um elenco afinado com o tom do projecto, The Blood Countess afirma-se como um dos momentos mais marcantes desta edição da Berlinale.
Pode não conquistar todos os espectadores, mas deixa uma impressão clara e reafirma que o universo vampírico continua a encontrar novas formas de se reinventar no cinema contemporâneo.