Ser árbitro é estar no centro do jogo sem querer ser o protagonista. É tomar decisões em segundos, saber que milhares de pessoas podem discordar de ti e, ainda assim, continuar a procurar uma coisa simples: que o jogo seja o mais justo possível.
No mais recente episódio do Triplo Duplo, David Reis e Pedro Lourenço recebem Paulo Marques, árbitro internacional português, para uma conversa que revela o lado invisível de uma das funções mais exigentes do basquetebol. Uma carreira que começou de forma quase acidental, depois de Paulo ter sido jogador e de surgir a necessidade de encontrar árbitros para os jogos de formação.
A passagem de jogador para árbitro acabou por transformar a sua relação com o jogo. Paulo explica como a experiência dentro de campo lhe permite compreender melhor jogadores e treinadores, antecipar movimentos e perceber quando deve intervir — e quando é melhor deixar o jogo continuar. Para ele, arbitrar é muito mais do que conhecer as regras: é interpretar o jogo, decidir em frações de segundo e conseguir manter um critério uniforme mesmo quando a intensidade aumenta.
Um dos momentos mais marcantes acontece quando recorda um episódio num jogo da Champions League que acabou por se tornar viral. Depois de assinalar uma falta e perante a contestação de um jogador, Paulo responde com uma frase pouco habitual num árbitro: “Se falhei, às vezes acontece. Desculpa lá.” Para Paulo, esse momento representa precisamente aquilo que deve ser o basquetebol: comunicação, respeito e a capacidade de reconhecer que também os árbitros podem errar.
A conversa passa ainda pela enorme diferença entre arbitrar uma final nacional e os grandes jogos internacionais, pela intensidade física do basquetebol moderno e pelo desafio de manter o mesmo critério perante jogadores como Victor Wembanyama, Luka Dončić ou LeBron James. Paulo explica que o nome ou a dimensão de um jogador não pode alterar a aplicação das regras, mesmo quando estão em jogo algumas das maiores estrelas do mundo.
Mas talvez o momento mais humano surja quando Paulo fala daquilo que ainda sente antes de qualquer jogo. Aos 49 anos, continua a sentir o mesmo “friozinho” antes de entrar em campo. E garante que esse nervosismo é precisamente aquilo que o mantém ligado à modalidade.
Há ainda uma dimensão de orgulho nacional. Depois de não ter conseguido representar Portugal como jogador, encontrou na arbitragem uma nova oportunidade para levar o nome do país aos grandes palcos europeus. “O que eu gosto é de ver Portugal no mapa.”
Mais do que uma conversa sobre arbitragem, este episódio é sobre decisão, pressão, humildade e respeito pelo jogo. Porque, para Paulo Marques, o verdadeiro sucesso de um árbitro talvez seja precisamente aquele em que, no final, ninguém se lembra dele — apenas se lembra de que o jogo correu como devia.