Madrepaz

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“Não conseguimos parar de fazer música”

Foi no final do mês de outubro que os Madrepaz editaram o segundo disco. Chama-se Bonanza e é o segundo trabalho da banda de Pedro da Rosa, Ricardo Amaral, Canina e João Barreiros em dois anos.

Nesta entrevista com o Bruno Martins, Pedro e Ricardo contam como nasceu este Bonanza, mais uma herança das memórias televisivas da década de 1980 depois de Panoramix, o primeiro disco.

Os Madrepaz atuam a 14 de dezembro no Musicbox, em Lisboa.

Madrepaz

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“Percebemos que era no campo que fazíamos a música de uma forma mais verdadeira”

 

Com o corpo na cidade, com a alma e o coração no campo. Os Madrepaz são formados por Pedro da Rosa, Canina (que nos vieram visitar aos estúdios da Antena 3), Ricardo Amaral e João Barreiros. A banda nasceu ainda no tempo d’Os Golpes, com Pedro e Canina, que mais tarde iriam encontrar Ricardo Amaral nos Armada. João Barreiros juntou-se para trazer uma dimensão de teclados e sintetizadores a este rock que pode ter tanto de psicadélico como de tribal; de andar a vaguear pelo deserto para depois entrar nas profundezas da selva.

As cores de Madrepaz nascem da cumplicidade que os quatro membros criaram nas aventuras pelo Ribatejo, na freguesia da Zibreira, em Torres Novas, onde Pedro, Ricardo, Canina e João brincam e compõem música. Vieram trouxeram as ideias para a cidade, gravaram em Alvalade, Lisboa, mas têm o desejo de regressar em breve para o ambiente rural e fazer tudo por lá. Para já apresentam Panoramix, o primeiro trabalho de Madrepaz: vem com nome de druida, cheio de vontade de oferecer poções mágicas — ou então uma imagem panorâmica dos largos horizontes que a banda quer abraçar. No dia 11 de março vão fazer o concerto de apresentação no de 11 de Março na Sala dos Geradores da Central Tejo, hoje MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia.

 

Como é que nasce o projeto Madrepaz? 

Pedro — Nasce ainda n’Os Golpes. Eu já toco com o Canina há mais de dez anos. Os Golpes terminam em 2011 e eu tinha uma banda paralela aos Golpes chamada Armada e a dada altura o Canina vem tocar connosco. Lançámos um EP e, mais tarde, um disco chamado Espiral. Dessa formação também fazia parte o Ricardo Amaral. Depois desse disco percebemos que já não era a Armada — que já tínhamos evoluído para outra coisa. A vida aconteceu, o BES rebentou, o baixista que trabalhava no banco foi promovido e deixou de ter tempo para ensaiar, o David Ferreira (um dos guitarristas) apaixonou-se loucamente por um dos amores do passado, do Brasil, e mudou-se para lá. Fiquei eu, o Canina e o Ricardo. Pegámos no Espiral e desfizemos aquilo: convidámos um teclista — o João só apareceu mais tarde — e percebemos que teríamos que sair de Lisboa para conseguir compor e para nos sentirmos verdadeiramente à vontade. Depois foi um exercício de brincadeira: de nos apetecer ir por aqui, juntar influências, ouvir muita música juntos, a refazer álbuns, a colocar hipóteses.

 

Quando é que começa a nascer este primeiro disco?

Pedro — Foi há um ano: fomos para o Ribatejo, isolados, e saímos de lá com oito canções. Nas semanas seguintes, antes de entrar em estúdio, fizemos mais três. E agora temos o disco.

 

“A brincar é a melhor maneira de aprendermos uns sobre os outros. Além da música também gostamos de brincar aos papagaios, ir para o meio do mato e sujar-nos todos”

 

Este universo estético dos Madrepaz já vinha a ser pensado desde os tempos de Armada?

Canina — Qualquer banda é o reflexo dos seus elementos, do contexto em que estão inseridos. Para nós é também isso. O momento que cada um estava a passar acabou por ligar-nos à música e a uns aos outros. Percebemos que no momento em que nos retiramos da cidade e nos juntamos noutro sítio qualquer, o processo torna-se natural. No disco Espiral, por exemplo, andávamos às voltas, à procura de qualquer coisa. Estava até a ser um processo moroso até que fomos para o meio do campo e no espaço de uma semana já tínhamos um disco praticamente feito. Percebemos que era no campo que fazíamos a música de uma forma mais verdadeira, mais ligados uns aos outros, à natureza.

 

Porque é que essa ligação à terra vos dá tanta motivação para escrever e compor?

Pedro — Porque é divertido. E porque é natural. A brincar é a melhor maneira de aprendermos uns sobre os outros — que eu acho que é fundamental numa banda. Não acho que seja fundamental para fazer música ou sequer fundamental para fazer boa música, mas para entender uma banda e assinar uma identidade coletiva é muito importante passar tempo de qualidade e de diversão. Além da música também gostamos de brincar aos papagaios, ir para o meio do mato e sujar-nos todos, fazer fogos no inverno (porque no verão não se pode). Eu o Canina e o Ricardo já passámos por tanta coisa juntos que muita da comunicação nem é verbal. E com o João foi exatamente igual: eu digo muito poucas palavras ao João e comunicamos maravilhosamente a fazer música. Todo o imaginário de Madrepaz nasce da convivência, do estudo e de culturas antigas. E se estás no meio do campo dás de caras com histórias e mitologias do campo, crenças populares e isso são temáticas que nos fascinam, especialmente na nossa, a portuguesa.

 

“Foi isso que descobrimos: que precisamos de tempo para fazer as coisas, para ter a fruição das coisas, beber água da fonte, mexer na terra e brincar aos papagaios”

 

Como foi esse período de composição deste vosso primeiro disco, Panoramix

Pedro — Por exemplo: Nós temos uma canção que se chama “Santa Clara e a Laranjeira da Zebra Madura”. Santa Clara é um cântico que andámos à procura e conseguimos identificar que vem dos cantos populares brasileiros. A laranjeira da zebra madura era uma laranjeira que lá estava onde nos sentávamos a discutir arranjos, instrumentos, a escutar canções. Passámos tantas horas debaixo da laranjeira nesta aldeia da Zibreira (Torres Novas) e criámos a nossa própria lenda à volta da árvore. É assim que funciona (risos).

Canina — Nós somos influenciados de muitas maneiras diferentes. Aqui na cidade somos bombardeados por várias sensações, é tudo muito rápido, temos pouco tempo para nós, para os pormenores, e para ligarmo-nos uns aos outros. Foi isso que descobrimos: que precisamos de tempo para fazer as coisas, para ter a fruição das coisas, beber água da fonte, mexer na terra e brincar aos papagaios. O disco conta as pequenas histórias que fomos criando na Zibreira.

 

Porque é que vieram gravar à cidade? Por que não fazer tudo na Zibreira?

Pedro — A pessoa certa para o gravar estava cá — o Diogo Rodrigues. Ele estava no seu estúdio em Alvalade e isso fez-nos sentir em casa. Estávamos na cidade, mas numa bolha dentro da cidade. Correu muito bem por causa desse conforto. Desta vez não foi possível, mas já falamos em levar as coisas todas para o campo e gravar lá. Não sabemos o que vai acontecer, mas já temos muitas ideias.

Canina — Abrimos uma torneira que agora não sabemos como é que se desliga. Estamos cheios de energia porque temos mais histórias para contar.

Pedro — É aproveitar.

 

O que é que encontramos neste disco?

Canina — É tudo o que experienciámos juntos: desde a “Laranjeira da Zebra Madura”, à “Mão Direita”, que foi uma história que o Pedro nos contou quando partiu a mão direita. Todo o álbum conta histórias pessoais, coisas que aconteceu a um e a outro. Trazemos o que experienciamos cá fora e trabalhamos dentro da banda: é o reflexo de tudo isso.

Pedro — Tem sempre essa função transformista, de desdramatização das coisas. E são assuntos sérios que trazemos! Normalmente são assuntos sérios, mas quando chega a hora de falar da melodia, da letra, e das palavras que vão ser escolhidas — dá-se muita importância a toda a estética, ao lirismo, com sílabas que não são escolhidas de propósito. Quando se fala de letras e melodias aborda-se essa questão: como é que podemos transformar qualquer coisa que temos que purgar, transformar sentimentos menos bons em arte ou em beleza. Eu diria que as três primeiras músicas são muito direcionadas para uma afirmação pop portuguesa: músicas diretas, de verso e refrão, orelhudas — assim achamos. Depois o disco sofre uma mutação: temos uma canção que pode ser perfeitamente tocada no Boom [Fest], com um beat bastante trance; temos jogos de guitarras e pianos e vozinhas à Beatles; temos canções que podiam ser saídas do estúdio do Rodrigo Leão, só com um assobio, temos ícaros, só com shakers e abanicos. Temos uma canção muito inspirada em Simon and Garfunkel.

Canina — Temos outra chamada “Se Mifri-o Demoran-go”, que foi feita depois de ouvirmos muito Tinariwen, que me faz sentir que estou a beber chá no deserto. Depois em “Ícaro Pedrita” estamos na Selva Amazónica e de repente estamos outra vez no Ribatejo, em cima de uns fardos de palha, como no “Novas Pontes” (risos).

 

“Abrimos uma torneira que agora não sabemos como é que se desliga. Estamos cheios de energia porque temos mais histórias para contar”

 

O “Novas Pontes” e “Sol Amarelo” parece que encaminham os Madrepaz para um universo de rock psicadélico. Mas vamos descobrir muito mais neste Panoramix, certo?

Pedro — Eu chamar-lhe-ia um universo mais endogénico, uma viagem para dentro. E para mim é um privilégio encontrar malta que tem a coragem de expor isso. Luzes e cor é giro, mas às vezes é só uma distração.

 

Querem explicar-nos o título deste disco? É uma óbvia referência ao druida das histórias de Asterix?

Pedro — Quem pode explicar isso melhor é o João [que não esteve presente]. Mas sim, o Panoramix é o druida do Asterix. Nós gostamos muito do universo dos druidas e das florestas. Mas também podem ser uma mistura de panorama.

 

E num campo aberto, nada melhor do que uma fotografia panorâmica.

Pedro — Exatamente! Boa, Bruno (risos).