Rita Vian no Vocês Sabem Lá: “O medo dos outros é incapacitante. Porque o nosso medo já e gigante”

Rita Vian no Vocês Sabem Lá: “O medo dos outros é incapacitante. Porque o nosso medo já e gigante”

Rita Vian no Vocês Sabem Lá: “O medo dos outros é incapacitante. Porque o nosso medo já e gigante”

Rita Vian no Vocês Sabem Lá: “O medo dos outros é incapacitante. Porque o nosso medo já e gigante”

No novo episódio de Vocês Sabem Lá, Rita Vian descreve a criação do disco como um período em que a cabeça nunca parou, marcado pela intensidade emocional que acompanha não apenas a produção de um álbum, mas também a sua “ressaca” criativa. O trabalho contou com a colaboração próxima dos irmãos Henrique e António Carvalhal, dos Goias, que assinam a co-produção do projeto.

O título Liga Dura encerra uma ideia particular para a cantora. Mais do que algo que une, a “ligadura” surge como um instrumento de cura, uma imagem que atravessa várias das canções do disco.

Entre elas está “Internet”, uma reflexão sobre o ruído constante da vida digital e o impacto das redes sociais no quotidiano. Rita Vian admite ter procurado distanciar-se desse excesso de estímulos, chegando mesmo a abandonar grupos de WhatsApp, numa tentativa de recuperar espaço mental e silêncio.

A observação do mundo à sua volta continua a ser uma importante fonte de inspiração. Depois de trocar Marvila pela Ajuda, passou a conviver diariamente com as gaivotas que sobrevoam o bairro. O fascínio foi tal que gravou os seus sons para integrar a canção “Gaivotas”. “Parecem que se estão a rir”, conta, descrevendo os gritos das aves como autênticos ataques de riso.

Outro dos momentos marcantes do álbum acontece em “Falsas Esperanças”, tema que conta com a participação de Manel Cruz. A colaboração tem uma história especial: anos depois de lançar uma das suas primeiras canções, quando ainda trabalhava num bar, Rita recebeu inesperadamente uma mensagem do músico. Fã assumida dos Ornatos Violeta desde a adolescência, acabou por ver concretizado um encontro artístico que parecia improvável.

A relação com a música começou muito antes. Cresceu numa família onde a música estava sempre presente: os pais tocavam e cantavam, a mãe escrevia canções e a avó também tinha o hábito de cantar. Ainda hoje guarda na memória uma canção que a avó lhe ensinou e que consegue interpretar de cor.

Embora tenha estudado Jornalismo e realizado um estágio na SIC, rapidamente percebeu que o seu caminho passava pela música. Antes de conseguir dedicar-se totalmente ao projeto artístico, passou por vários trabalhos em bares e restaurantes. Foi precisamente a experiência como empregada de mesa que inspirou a letra de “Purga”. A pandemia acabaria por lhe oferecer o tempo necessário para finalizar as primeiras composições a solo.

Ao longo da conversa, Rita Vian recorda também a importância de artistas que abriram novos caminhos na música portuguesa contemporânea. Entre eles destaca Conan Osíris, cuja abordagem singular lhe mostrou que havia espaço para explorar sonoridades diferentes e construir uma identidade própria.

Antes de lançar música em nome próprio, já tinha deixado a sua marca em colaborações como “Carmen”, com Mike El Nite, um dos seus amigos mais próximos e responsável por um convite decisivo para cantar num dos seus discos. Foi também através dessa experiência que aprofundou a relação entre a sua voz e as influências do fado.

No final da conversa, surge uma reflexão sobre confiança e liberdade. Rita recorda o encontro com uma jovem que a entrevistou num festival e que estava visivelmente nervosa. A partir dessa experiência, deixa uma mensagem simples, mas poderosa: devemos tentar libertar-nos dos medos que os outros projetam sobre nós e encontrar coragem para seguir o nosso próprio caminho — uma lição que parece resumir, de certa forma, todo o seu percurso.