A Floresta Encantada vai ganhar um novo habitat. O programa de Tiago Castro passa a integrar a grelha da Antena 3, reforçando a tradição da estação enquanto espaço de descoberta, risco e curiosidade musical. Todos os domingos, às 20h, abre-se uma clareira onde o rock psicadélico, o progressivo, o krautrock e outras derivações das décadas de 60 e 70 voltam a respirar — agora para todo o país. A Floresta Encantada foi distinguido com o Prémio Sociedade Portuguesa de Autores para Melhor Programa de Rádio em 2023.
A relação de Tiago Castro com a rádio vem de longe. Ainda em criança, quando teve acesso a um rádio gravador de cassetes, já imaginava programas inteiros, com reportagens inventadas e bandas sonoras retiradas dos filmes que o marcaram, de Star Wars a Regresso ao Futuro. Mais tarde chegaram as canções e, com elas, a vontade imediata de as partilhar. A música, para Tiago, sempre foi algo vivo e transmissível — como uma história que pede para ser contada.
A ideia de viagem atravessa todo o ADN de A Floresta Encantada. Não apenas no sentido musical, mas também literal. Entre as muitas referências que alimentam o imaginário do programa — como a mítica viagem do “Magic Bus” de Ken Kesey, símbolo fundador da contracultura psicadélica — há também experiências pessoais. Uma das mais marcantes levou-o a cruzar a Argentina e o Chile, atravessando os Andes rumo à Patagónia, até ao “fim do mundo”. Uma travessia feita de aventura, silêncio e paisagens arrebatadoras, onde o olhar se perde e a escuta se afina — tal como acontece no programa.
Para quem vive mergulhado em playlists algorítmicas, A Floresta Encantada propõe outra lógica. Aqui não há sugestões automáticas nem padrões pré-programados. Há escavação, ligação de pontos, curiosidade e tempo. Tiago Castro apresenta músicas e bandas que revolucionaram o som nas décadas de 60 e 70 — algumas conhecidas, outras quase invisíveis aos algoritmos — e traça pontes com a música que se faz hoje. Tudo está interligado. O programa assume-se como uma viagem por uma floresta densa, povoada por magos, criaturas fantásticas, amuletos e desfiladeiros com vista para galáxias longínquas. Ingredientes que dificilmente cabem numa fórmula automática.
A chegada à Antena 3 não altera essa essência. Mantém-se intacta a vontade de descoberta e o fascínio por géneros que, apesar de historicamente distantes, continuam surpreendentemente próximos. O que muda é a escala e a responsabilidade: A Floresta Encantada passa agora a falar para um público nacional, juntando novos ouvintes aos que já acompanhavam o programa no FM em Lisboa e no Porto, e mais recentemente em formato podcast.
Se tivesse de condensar o espírito do programa em apenas cinco discos, Tiago Castro escolheria obras que reúnem ideias, sons e inovações que ainda hoje moldam a música contemporânea: Revolver dos Beatles, Pet Sounds dos Beach Boys, The Piper at the Gates of Dawn dos Pink Floyd, The Velvet Underground & Nico e Ege Bamyasi dos CAN. Discos que abriram portas, desafiaram convenções e continuam a ecoar no presente — tal como A Floresta Encantada, agora pronta para crescer numa nova paisagem radiofónica.