O desperdício de roupa é um dos principais fatores de poluição no mundo inteiro. Todos os anos são descartadas entre 100 a 120 milhões de toneladas de roupa, só em Portugal são 200 mil toneladas/ano.
Para minimizar o problema, opta-se muitas vezes por fazer doações, pensado assim que a vida da roupa que já não vestimos pode ser alargada se entregue a pessoas necessitadas. Só que a realidade não é tão simples como a teoria. Estudo publicado na Nature Cities, revela que a doação de roupa obedece a um processo complexo.
Primeiro, as roupas que doamos, vão para lojas de caridade e colecionadores que separam o trigo do joio. As melhores peças podem acabar em lojas de segunda mão ou coleções particulares, mas como entregamos muito mais roupa do que aquela que o sistema de segunda mão consegue absorver (toneladas a mais, diz o estudo), a roupa que não entra no circuito de revenda é deitada fora ou enviada para outros países. Esta deslocação da roupa usada joga a favor dos países que enviam contentores para fora, mas na verdade não resolve o problema do desperdício, apenas o desloca para outra região do planeta.
Todos já vimos as impressionantes montanhas de roupa usada que existem no deserto Atacama, no Chile, em consequencia desta “viagens” dos texteis. O estudo analisou doações em sete cidades em diferentes países, entre elas Austin, Toronto, Melbourne e Oslo. Em todas havia mais roupa a chegar aos centros de reciclagem do que aquela que podia ser absorvida pelas lojas de segunda mão. Na Noruega, praticamente toda a roupa dada para reciclagem (97%) acaba por sair do país, há pouco hábito de comprar roupa em segunda mão. Estados Unidos e Austrália, também estão entre os países que enviam muitas toneladas de roupa para fora das suas fronteiras (mais de 30%).
Os autores do estudo explicam a situação com excesso de produção e excesso de consumo de moda. Nunca houve roupa tão barata como hoje, muitas vezes compramos peças que usamos só uma ou duas vezes e depois deitamos fora, ou por estarem estragadas ou por já não nos agradarem. O estudo defende que as cidades devem parar de tratar os têxteis como um problema de caridade, e começar a pensar neles como um verdadeiro problema de poluição, que precisa de ser gerido como tal. Diz o estudo que as cidades devem encorajar os consumidores a reparar e reutilizar roupa e as autoridades administrativas devem disponibilizar máquinas de costura e pessoas que ajudem nas reparações.
O estudo também chama a atenção para o excesso de publicidade a marcas de fast fashion, defendendo que devem ser instituídos limites à quantidade de anúncios a roupa no espaço público, e aumentada a visibilidade de serviços que promovam a sua reparação, ou a venda em segunda mão. A nível individual, o melhor que podemos fazer é não comprar roupa por impulso, nem descartá-la sem pensar duas vezes. Na maior parte dos casos, é possível reparar e modificar roupas que já não vestimos.