O vocalista e letrista dos Glockenwise passou pelo Vocês Sabem Lá para falar do novo disco da banda de Barcelos, das memórias de infância e do processo quase sofrido de dar palavras às canções.
Na infância dividida entre a história e as ciências naturais, Nuno Rodrigues imaginava-se mais depressa como Indiana Jones ou Jacques Cousteau do que fechado num escritório. Acabou por licenciar-se em Direito em Coimbra, com direito a Erasmus nos Países Baixos, mas com uma certeza imutável em segundo plano: a vida a sério acontecia com guitarras nas mãos.
“Em todo o meu percurso, curiosamente, havia uma naturalidade qualquer de achar que o meu steady job era ser dos Glockenwise. O resto era uma coisa meia acessória que estava a existir à minha volta enquanto não desse para ser dos Glockenwise a tempo inteiro. Nunca se veio a verificar…”, confessa, entre o riso e a lucidez.
As origens musicais vêm de trás: do piano de infância que ainda hoje resiste, dos saraus caseiros com o irmão (a mão mais rápida do Minho no cavaquinho) e do ponto de viragem na Escola do Rio, o epicentro onde se cruzavam discos novos e velhos, onde os Glockenwise deram os primeiros passos e onde Nuno admite ter sido, quase sem querer, um autêntico fashion victim.
Hoje a trabalhar no setor cultural no Porto, o músico reflete também sobre os bastidores da indústria, o desconhecimento generalizado dos artistas nacionais sobre os direitos de autor e a relação com as entidades que os tutelam.
Sobre Vale Tudo Para Chegar a Qualquer Lado, o novo registo de estúdio dos Glockenwise, o título move-se num equilíbrio fino entre a constatação e a provocação, convocando histórias e memórias locais como a da “guerra do caulino”. Um disco onde o português se consolida, ainda que sem facilitismos. Ao contrário de quem escreve por impulso constante, para Nuno Rodrigues o processo criativo é quase cirúrgico: “As pessoas que escrevem têm o hábito da escrita e há uma compulsão para o fazerem. Eu, pelo contrário, tenho não uma aversão, mas muita dificuldade de encontrar um espaço físico e mental para o fazer. Não me-é uma coisa natural. É uma coisa até dolorosa, às vezes.”
Uma dor que se desfaz ao encontrar espelho e filiação assumida em referências como Rui Reininho, B Fachada ou Maria Reis — e numa declarada obsessão pelas canções de Chico Buarque.
