No Ar é um programa de rádio e televisão dedicado à música portuguesa. Semanalmente, a Antena 3 põe em montra quer artistas consagrados, quer projetos emergentes, convidados a tocar ao vivo as suas canções e a participar numa entrevista focada nas suas ideias.
No Ar é emitido todas as quintas-feiras, às 12h10, na Antena 3 (repetição ao sábado, às 20h), e na madrugada de quinta para sexta, pelas 00h30, na RTP 2.
Duquesa, projeto de Nuno Rodrigues (Glockenwise), foi o protagonista do episódio de 9 de fevereiro, onde apresentou canções do disco de estreia, homónimo, lançado em 2014, e temas novos, que fazem parte do recém editado Norte Litoral.
Podes (re)ver aqui a primeira temporada da série que recupera o modelo ao vivo em estúdio.
De vez em quando, Nuno Rodrigues tira o pé do acelerador. Desliga as distorções e despe a camisa de punk que veste em The Glockenwise e deita as suas canções numa caminha de cetim. Delicadas e suaves. Emocionais e confessionais. Nuno sai do mosh pit e abre espaço a Duquesa, onde nos apresenta os seus temas a solo, próximo de uma raiz indie-pop. Depois do EP de estreia, homónimo, em 2013, o vocalista lança hoje o segundo ensaio: Norte Litoral vem com sete faixas, duas delas cantadas em português. Não se trata de uma homenagem a Barcelos (onde nasceu e viveu) e ao Porto (onde trabalha e vive). Nuno Rodrigues diz que é a constatação de um facto. “Eu sou daqui”, diz-nos. É aqui que ele acontece. As alegrias, as tristezas e as desilusões. O trabalho, o ócio e a procrastinação da Duquesa. Não somos só de um sítio nem somos só uma única coisa. Norte Litoral é Nuno Rodrigues a mostrar-nos outra face da mesma moeda.
Há dois anos, o teu primeiro trabalho a solo foi lançado com canções que iam sobrando das tuas escritas e composições. Neste segundo disco sentiste que já havia algo mais sólido na base do projeto sobre o qual poderias trabalhar com outras intenções?
Houve um pouco mais de intenção, mas a intenção não passou por pensar que ia fazer canções para Duquesa. Quando a canção soava, eu já sabia se era de Duquesa ou não. Se no primeiro EP aqui ia ficando em águas de bacalhau, e eu acabei por compilar, aqui, quando elas apareciam, eu já sabia para que projeto era. Houve meia intenção, pelo menos. Só não foi completa porque as músicas são tão distintas umas das outras que é quase uma mixtape de vontades: há uma música dos anos 80, uma balada ao piano, uma música no Rhodes: é um bocado quase um fetiche de miúdo, de ter todos estes instrumentos à disposição.
Como é que distingues as músicas que vais encaminhar para Glockenwise e as que vais direcionar para Duquesa?
Normalmente, as músicas de Glockenwise são um bocado mais deprimidas. Apesar de ser uma banda de garage rock, mais upbeat, as coisas são mais urbano-depressivas. Enquanto em Duquesa são o mais emocional possível, digamos assim. Como escrevo as letras todas em cima do joelho, não é necessariamente na letra ou no tema que está na distinção. É mais na altura em que toco a canção: há uma distinção na maneira de tocar, seja na mão, seja no instrumento que uso, que já consigo perceber quando é canção para Duquesa. É um conceito meio abstrato.
“A litoralidade é importante para mim: cresci na margem do Cávado e na Costa Atlântica e sou do Norte. Eu sou daqui. Não sou só de Barcelos, até porque vivo no Porto há alguns anos. Sou do Norte-Litoral. Não é elogioso, por si só: é mais factual”
Se formos pela música, as distinções podem ser mais óbvias.
Sim, mas também é fácil pegar num riff de Duquesa e meter-lhe um [pedal] fuzz. Se o construísse com os meus três amigos de Glockenwise, sairia uma canção de Glockenwise (risos).
Há essa regra de escrever sozinho ou acompanhado, conforme o projeto?
O processo, em Glockenwise, costuma ser eu ou o Rafa levarmos algo que se assemelhe a uma canção: um riff, basta. Meio riff, até! Mas quanto mais completo, mais rápido fazemos em grupo. Há outras coisas mais fora da caixa que tentamos fazer, especialmente nestas novas músicas que temos andado a fazer para Glockenwise.
Em Norte Litoral é a primeira vez que cantas em português. E fá-lo por duas vezes, em duas canções. A tua voz é diferente quando é cantada em português? Pareceu-me que são canções com outra formalidade.
É muito diferente. Não sei bem explicar, mas há duas distinções que faço: a primeira é na temática, que em português é um bocado mais terrena, mais ligado a algo “de onde eu sou e para onde vou”, mais ou menos (risos). E as canções em inglês, são mais do foro emocional e romântico. A segunda distinção é que, de facto, há um timbre diferente que ainda não tinha reparado e que, de certo, tem que ver com algo fisiológico na colocação da voz ao cantar em línguas diferentes. Reparei que o timbre em português é um pouco mais honesto, o que é normal: é a língua que falo todos os dias.
“As músicas de Glockenwise são um bocado mais deprimidas. Apesar de ser uma banda de garage rock, mais upbeat, as coisas são mais urbano-depressivas. Enquanto em Duquesa são o mais emocional possível”
No teu primeiro EP tinhas feito seis canções. Agora aparecem-nos sete. Porquê os trabalhos curtos? Mostra uma espécie de desprendimento estético com que vais fazendo este teu trabalho a solo?
(risos) O desprendimento estético se calhar é uma maneira bonita de dizer que sou um preguiçoso do caraças (risos) o que não é mentira! Eu não tenho uma agenda a sério com Duquesa. Tenho quando há um disco para apresentar – como é o caso deste momento. Mas a agenda que antecede a existência do disco, que no fundo é o trabalho que faço em casa sozinho, essa não existe. Está intimamente ligada com a minha própria agenda. Ou seja: se os Glockenwise ensaiam todas as segundas-feiras, ao final da tarde, o pessoal só pega na guitarra quando lhe apetece e eu não sou gajo mais metódico nesse aspeto! Por isso é que surgem poucas canções ou muito espaçadamente. Há artistas que são ultra-metódicos, como o caso do B Fachada, que quando trabalha numa canção trabalha mesmo a sério, está ali dias a fio e vai construindo a pouco e pouco – foi isso que percebi das conversas que tive com ele. Eu sou muito descomprometido: às pode ser mau, porque pode haver pessoas à minha espera; mas também acho que já se habituaram a este método meio caótico. O disco é este: se são só sete canções é porque foi assim que fechei o círculo. Mais do que estas se calhar já desequilibrava.
Como é que o título Norte Litoral envolve estas palavras e músicas que escreveste? Serve como uma dedicatória a algum local, a esta região por onde tens vivido, onde pertences e que te pertence?
Eu não vejo como dedicatória. A canção-título pode soar mais a dedicatória, mais uma canção de elogio. Mas de resto não é uma dedicatória ao local geográfico onde cresci. Acho que é mais situacional: é daqui que eu sou, no fundo. Tive várias ideias para títulos, mas esta foi sempre a que me agradou a mais. Eu nunca sei se vou voltar a pegar em Duquesa – tenho um trabalho com Glockenwise, mas não tenho nenhum compromisso com Duquesa. Então aproveitei para fazer canções tão diversas, mas também para falar dos sítios que me apetecia. A litoralidade é importante para mim, sou da beira-rio e da beira-mar, ao mesmo tempo: cresci na margem do Cávado e na Costa Atlântica e sou do Norte. Eu sou daqui. Não sou só de Barcelos, até porque vivo no Porto há alguns anos. Sou do Norte-Litoral. Não é elogioso, por si só: é mais factual.
“De facto, há um timbre [quando canta em português] diferente que ainda não tinha reparado. Reparei que o timbre em português é um pouco mais honesto, o que é normal: é a língua que falo todos os dias”
É no Norte Litoral que tu aconteces?
Exatamente! Nós estamos agora a conversar enquanto faço o percurso que, atualmente, faço com maior regularidade – quase de olhos fechados. Estou a ir para Barcelos, pela A28. Mas no Porto deixei uma parte da minha vida, a minha namorada, as minhas atividades profissionais e alguns dos meus amigos, mas volto para Barcelos onde tenho lá a minha família, os meus amigos, a minha banda é de lá. Mas passei imenso tempo em Esposende, foi lá que conheci a minha primeira namorada – na praia. Todo eu estou disperso por esta área. Eu não posso dizer que me tenha acontecido algo espetacular para baixo do Mondego – mesmo que já tenham acontecido coisas muito boas. Mas não são coisas com que me possa identificar de forma identitária.
Nós nunca somos só de um sítio. Cresceste em Barcelos, vives no Porto, falaste em Esposende… que viagens são estas?
Eu, na verdade, estudei em Coimbra, durante cinco anos. Mas também não guardo recordações por aí além. Aliás, 40 por cento do meu tempo de Coimbra foi passado no Porto, em casa de amigos ou de namoradas. A minha relação foi sempre de rumo ao Norte – ou para Lisboa, de vez em quando. Mas estas são as viagens que escolhi fazer e outras as que fui forçado a fazer – ou que nem tive opção de escolha, como nascer em Barcelos. Só que voltar lá, muitas vezes, e isso é uma escolha. Eu sou daqui por coincidência, mas também por opção.
A tua paixão pela música começou a nascer onde?
Ainda quando era novito. Não sou daqueles que diz que aos dez anos a banda favorita eram os The Stooges. Mas foi na adolescência, com algumas bandas de Barcelos: se falasses com o Nuno de 15 anos ias-te aperceber que, provavelmente, eu era o maior fã do mundo dos Green Machine – para mim nunca serão um rodapé, mas antes um título (risos). O meu irmão mais velho dava-se muito com as bandas de Barcelos e, por isso, recebi o testemunho de uma forma muito direta.
“Eu sou muito descomprometido: às vezes é mau, porque pode haver pessoas à minha espera; mas também acho que já se habituaram a este método meio caótico. O disco é este: se são só sete canções é porque foi assim que fechei o círculo. Mais do que estas se calhar já desequilibrava”
E foi em Barcelos que começaste, não só a ouvir, mas também a tocar.
Sim. Diria que os primeiros 20 concertos dos Glockenwise foram em Barcelos. A nossa primeira ida ao Porto foi em 2007, acho eu. E nem quando fizemos a nossa primeira tour europeia eu senti tanto entusiasmo!
E o Porto hoje é a segunda casa ou a primeira dos Glockenwise?
Nós agora ensaiamos no Porto, mas identificamo-nos sempre como uma banda de Barcelos. Nunca nos introduzimos no circuito das bandas do Porto nem sequer partilhámos salas de ensaios com malta do Porto. Partilhamos a nossa sala com uma banda de Lamego, que como se fosse Barcelos do Douro (risos). Apesar de ensaiarmos e fazer a vida toda no Porto – exceto o Rafa que mora em Guimarães – não nos identificamos como banda do circuito do Porto.
É muito diferente para ti subir ao palco para interpretar estas canções de Duquesa, sem aquele escudo ou muralha que são os Glockenwise? Existe o Nuno de Glockenwise e o Nuno de Duquesa?
Existe sem dúvida. Há pouco, quando estava a falar de cantar em português, até estava a pensar que o que descobri mais rápido é que não deixei vencer a persona que é o Duquesa. Tenho consciência que são sensibilidades completamente diferentes e tento encaixotá-las o melhor possível, para não se confundirem uma com a outra. Às vezes dou por mim num concerto de Glockenwise a querer fazer um interlúdio entre uma canção e uso mais a minha voz, que seria mais a Duquesa, e foi difícil encontrar qual seria a personagem certa para o Duquesa em palco. Será que devia fazer o mesmo tipo de piadas? Fui encontrando o meu espaço.
Duquesa é uma personagem ou é um projeto onde podes trabalhar outras personagens, até de outros géneros?
É uma personagem, uma só. Eu não tinha muita consciência disso: a determinada altura apercebi-me que me comportava de determinada forma quando estava a ser Duquesa e, de forma consciente, comecei a patrocinar esse comportamento. No fundo, sinto que encontrei a melhor forma de me expressar e agora gostava de cultivar essa ideia, essa personagem. Vamos ver se se desenvolve ou se murcha!