Depois de fechar, em 2026, a trilogia iniciada com O Dread Que Matou Golias (2016) e continuada com Sangue Ruim (2022), Holly Hood tem agora campo aberto para olhar para uma década de criação. Ele foi o convidado desta semana do Vocês Sabem Lá e a conversa com Bruno Martins serviu para recordar a noite de 14 de março, em que subiu ao palco do Coliseu dos Recreios, em Lisboa. E também para falar dos caminhos que quer traçar de hora em diante.
O concerto de março serviu para encerrar uma trilogia que começou em 2016, mas que só a meio do percurso teve a duração definida. E foi essa década de criação que fez Holly Hood lembrar-se do filme “Boyhood”, do realizador Richard Linklater, que filmou um elenco – e o crescimento de uma criança – durante 12 anos. “Idealizei metade e depois fui idealizando pelo caminho”, diz o músico. E, tal como Richard Linklater, ia questionando-se a todas as horas: “Será que é isto mesmo que eu quero fazer?”
Agora que o caminho está aberto, Holly Hood olha para o futuro com “uma folha em branco”. O regresso aos discos é certo, mas o formato é incerto. Entre as possibilidades está um EP em que pretende produzir e cantar, mas afastando-se do rap. A perfumaria, com a sua marca Pontimolla, é outro território onde encontrou uma forma de expressão e uma possibilidade de chegar mais longe, sem a barreira linguística que sente na música.
Quem também é parceiro permanente de criação é o produtor Here’s Johnny. São amigos desde a infância, cresceram no mesmo bairro e, 26 anos depois, continuam a trabalhar juntos. Holly Hood recorda que nunca gravou nenhum dos seus discos – ou feats – num estúdio profissional que não fosse o de Johnny. E, em jeito de brincadeira, diz: “Imagina que namoras com a Monica Bellucci. Para que é que tu vais andar atrás de outra? É um bocado essa a lógica. O Johnny é a minha Monica Bellucci”, ri-se.
A relação com as raízes também permanece. Holly Hood cresceu em Unhos e identifica-se profundamente com a Linha da Azambuja, território que, diz, teve influência naquilo em que se tornou. Recorda uma comunidade onde havia dezenas de rappers, batalhas de rua e uma forte sensação de pertença. “Parte daquilo que eu sou deve-se vir dali”, afirma.
Holly Hood começou a escrever rimas aos 12 anos. Hoje, aos 38, diz que há coisas que não se perdem. A ingenuidade é uma delas: faz parte do método. “A ingenuidade faz parte da criação artística.” E mais: “muita da coragem artística vem da ingenuidade.”
